quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

A propósito do sismo de hoje...

A propósito do sismo desta madrugada, relembro um pequeno excerto de uma interessante comunicação de Rómulo de Carvalho. Foi apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987, intitulando-se «Interpretações dadas, na época, às causas do terramoto de 1 de Novembro de 1755»:

«Em 1 de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés . O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». E acrescenta: «de modo que os que estávamos na Igreja da Senhora das Necessidades, onde os Soberanos costumão ir aos sabbados, julgámos que chegava Sua Magestade» .

Em breves instantes o tremor, que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. As paredes dos edifícios começaram a dar de si, a estalar, a abrir fendas e em breve se desmoronaram abatendo-se sobre as pessoas que alucinadamente fugiam de suas casas, correndo pelas ruas. Era um sábado, e dia santificado, dia de Todos-os-Santos. Por ser dia de especial devoção, e por ser de manhã, estavam as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. As pedras das abóbadas dos templos, as colunas dos altares, as paredes em redor, abateram-se abruptamente sobre as pessoas desvairadas e indefesas, erguendo nuvens de poeira que sufocavam os poucos que ainda conseguiam fugir a tempo.

O abalo durou cerca de sete minutos 3 e transformou, em tão curto tempo para tão desoladora mudança, uma cidade cheia de animação e de movimento, num montão de ruínas. Quantas pessoas teriam perecido? Muitos milhares mas não se sabe ao certo quantos .
Ao primeiro abalo, o das nove e três quartos, sucederam-se mais dois no mesmo dia, igualmente violentos, um às onze horas da manhã e outro às três da tarde, provocando novos desmoronamentos, e novas angústias , após o que abrandou a convulsão da terra embora os pequenos tremores fossem prosseguindo nos dias e nos meses que lhes sucederam.

A multidão desvairada entendeu que estaria mais segura correndo para locais descobertos, sem casas nem arruamentos, para o campo se possível, e também para a margem do rio, para a largueza do terreiro do paço real ou para a Ribeira. Tudo inútil. Aí não eram as pedras das casas que esmagavam os fugitivos mas as ondas embravecidas do Tejo que avançavam sobre a cidade e depois recuavam levando tudo atrás de si. «[...] meia hora ou pouco mais de cada num dos tremores succedeo a intumescência do mar». «Em partes fugio muito o Tejo, e o mar descobrio praias, que nunca virão o Sol. Em outras partes entrarão as agoas muito dentro da terra» . «O movimento das agoas, foi hum dos effeitos estupendos do Terremoto». «Mais de oito dias depois do primeiro de Novembro não tiverão as marés o seu curso regular» .

A tamanha desgraça colectiva ainda se acrescentou a dos incêndios. As velas acesas nos altares das igrejas e nos oratórios particulares, as brasas dos fogareiros das cozinhas na habitação de cada um, facilmente pegaram fogo a panos, a roupas, a papéis sobre os quais tombavam. Logo ao primeiro abalo se seguiu imediatamente «taõ voraz incêndio que acabou por arruinar a melhor parte da Cidade, o qual principiou na mesma hora» - diz uma das testemunhas do acontecimento . A cidade ardeu «durante quatro dias» - informa outro comentador .

A movimentação do solo no decurso da memorável tragédia daquele primeiro dia de Novembro, deu-se segundo diferentes direcções, o que teria sido motivo para que o terramoto fosse mais devastador. Além de se agitar verticalmente também a terra «dava huns balanços com que a modo de embarcação», de nascente para poente e de norte para sul . São concordantes os diversos testemunhos, embora alguns dêem mais privilégio à direcção norte-sul. «A direcção dos seus movimentos» - diz um desses testemunhos - «suppõem todos de Norte a Sul. Não há dúvida, que os mayores, e de mais larga duração forão nesta direcção; e os que eu pude observar foraõ da mesma sorte; mas pessoas veridicas, e de caracter destincto, me affirmáraõ, que houve mudança nestes movimentos, que a terra também tremera do Oriente para o Poente» . Teodoro de Almeida, observador atento, é dessa opinião: «O movimento foi com balanço differente em diversos sitios de Lisboa, e de seus contornos. Em muitas partes foi o balanço de Norte a Sul, e n'outros de Poente a Nascente». O mestre oratoriano apresenta exemplos concretos, que apreciou cuidadosamente, de pormenores de edifícios que ruíram ou não, ou que sofreram deslocamentos, e até o caso de rotação sobre si mesmas de certas estátuas que ornamentavam o jardim da casa de campo do marquês de Ponte de Lima, em Mafra .

Não foi apenas na cidade de Lisboa e seus arredores que o terramoto de 1755 se fez sentir. Ele foi, segundo opinião abalizada, «o mais extenso que a sciencia assignala» . O chamado, indevidamente, «terramoto de Lisboa», sentiu-se, pode dizer-se, em todo o Portugal Continental, na Espanha, no Norte de África, nas costas do Mediterrâneo, na Europa Central, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia, na Noruega, e até do outro lado do Atlântico. Os efeitos mais desastrosos deram-se porém no continente português, em Espanha e em Marrocos .»

Alpinismo e homossexualidade

(A propósito da proposta de lei hoje aprovada que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, recupero um texto que publiquei noutro blogue já há algum tempo sobre o tema supracitado)

George Leigh Mallory foi um exímio e destemido alpinista. Herói da I Guerra Mundial, com uma enorme experiência de escalada nos Alpes e em Gales, fez parte da expedição britânica de reconhecimento do Everest em 1921 e destacou-se num dos primeiros ataques ao cume da montanha mais alta do mundo no ano seguinte. Quando morreu, em 1924 na face norte do Everest, era sem discussão o melhor alpinista britânico do seu tempo. Ninguém desceria para contar que subiu ao cume do Everest antes de 1953 (por altura em que se propunha a estrutura em dupla hélice do ADN).

A última fotografia de George Mallory e Sandy Irvine

Expedição de 1924

Em 1999 o corpo de George Mallory foi encontrado a cerca de 8300 metros de altitude. Os alpinistas que o descobriram ficaram pasmados. As roupas eram simplesmente um amontoado de camadas de roupa quotidiana (camisa!), o material de segurança praticamente inexistente, a corda não aguentaria uma verdadeira queda (na realidade não aguentou, foi encontrada partida) e as botas em absoluto ineficazes para progressão em glaciar. Em 1924 não se poderia recorrer a uma série de "ajudas" dos tempos de hoje, como cordas fixas e uma escada colocada no second step por uma expedição chinesa nos anos 60. As vias de ascensão não eram conhecidas e não se sabia se seria possível a um ser humano sobreviver, mesmo que por breves momentos, no cume do Everest. Os sistemas de oxigénio suplementar tinham tantas fugas e eram tão pesados que suscitava debate a sua real utilidade. Não tinham como se proteger do frio, o calçado era inadequado para progredir sobre o gelo ou neve dura, as cordas partiam e não sabiam por onde ir. Era necessária uma audácia e espírito de aventura inimagináveis.

Por qualquer medida que se tome, George Mallory era um expoente das características superlativas da masculinidade.

Mallory era considerado um homem muito bonito e tinha um genuíno interesse pelas artes. Estudou em Cambridge, envolveu-se no ambiente do teatro, música e pintura, várias vezes pousou nu para o pintor Ducan Grant (homossexual assumido). Grant chegou mesmo a gabar-se de que Mallory terá sido seu amante. Não quer isto dizer, de modo algum, que tal seja verdade. De qualquer forma, o clima de Cambridge (e de Oxford) na primeira década do século XX era um ambiente muito tolerante à homossexualidade, com manifestações de amor assumidas entre homens.

Não há qualquer prova de que Mallory, mais tarde casado e com filhas, tenha tido alguma experiência homossexual. No entanto assumiu (numa carta enviada à sua mulher!) quando estava na Guerra o fascínio por um soldado extremamente bonito que havia encontrado nas trincheiras no dia anterior.

George Mallory

Há mesmo um biografo de Mallory que sugere que a escolha do inexperiente jovem Sandy Irvine (22 anos sem nenhuma época nos Alpes!) como seu companheiro de cordada na fatal tentativa ao cume do Everest em 1924 terá tido motivos românticos. Esta tese é facilmente desmontada, há várias razões circunstanciais e práticas que justificam a escolha (era um dos alpinistas mais frescos, mais fortes e o que melhor sabia utilizar e reparar o equipamento de oxigénio). De qualquer forma a hipótese é legítima dado o ambiente que se vivia em 1924 entre a elite de aventureiros britânicos.

E em 2009 o parlamento português aprova o casamento gay!

Passo-a-passo. Sem atalhos.

A minha crónica regular no JN (16/12/2009 - "Passeio Público"):

Dizia recentemente um grande industrial europeu aos seus vários colaboradores, na reunião anual da empresa, depois de ter instalado várias unidades na China e países de leste: “Foi um erro. Temos de voltar a aprender a fazer o que sabíamos fazer. Com qualidade. Liderando a inovação técnica. E fazer aqui na nossa casa. Na Europa”. Deslocalizar a produção para reduzir custos não é sustentável e funciona contra o modelo europeu.

Portugal tem desmerecido uma estratégia que coloca o foco nas pessoas e na sua capacidade de reinventar o seu futuro. Uma estratégia clara de desenvolvimento teria tornado evidente a necessidade de reforço da capacidade científica e técnica, a necessidade de cuidar a educação como recurso nacional precioso, bem como a imperiosa necessidade de incentivar a criatividade e capacidade empreendedora. Como muitas empresas europeias, Portugal preferiu meter-se por atalhos esquecendo que o futuro se constrói passo-a-passo.

Precisamos essencialmente daqueles que investem em Portugal para utilizar a qualidade dos nossos recursos humanos, para quem constituímos uma vantagem competitiva porque identificam os nossos sucessos na transformação de conhecimento em ideias de negócio e em empresas, que reconhecem a nossa capacidade criativa. Não precisamos do investimento que tem como único objectivo salários baixos ou incentivos financeiros à instalação. São atalhos. E quem se mete por atalhos... mete-se em trabalhos.

Nessa perspectiva é muito importante reconhecer o papel do consórcio INOV-C, liderado pela Universidade de Coimbra, nessa nova atitude do Centro de Portugal. Na verdade, o consórcio permite um conjunto de sinergias alargadas num conceito de parque de ciência e tecnologia multipolar alargado à região, e no qual se inclui, entre outros, o iParque, o Biocant e o IPN. As vantagens são as da integração, da coordenação próxima, da eficácia e da não duplicação de meios e infra-estruturas. A candidatura foi aprovada pela Comissão Directiva do Programa Operacional Regional do Centro em Dezembro. Ao todo foram atribuídos cerca de 23, 5 milhões de euros de FEDER ao projecto conjunto. O iParque candidatou as suas duas fases de construção - que incluem os terrenos, as infra-estruturas, o Business Center, o edifício Nicola Tesla (acelerador de empresas), o sistema de mobilidade do parque e as infra-estruturas de comunicação – num total de 24.390.000 euros. Esta aprovação atribui ao iParque 11.045.040 euros de FEDER.

O objectivo é ser uma das 100 regiões mais inovadoras da Europa e por isso atractivos para iniciativas empresariais que signifiquem um considerável investimento estrangeiro diferenciador, que é necessariamente o investimento na nossa capacidade de sermos criativos e empreendedores. Esse é que é o investimento relevante e sustentável.

:-)

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Nota de Imprensa da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica

(Imagem do peditório dos bolseiros de investigação no ano passado pela altura do Natal)

Informação recebida da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica:

16 de Dezembro de 2009

Assunto: Reunião da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) com a Secretaria deEstado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

No passado dia 2 de Dezembro, a ABIC reuniu com o Senhor Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Doutor Manuel Heitor, com o objectivo de ouvir as propostas do novo governo no que se refere ao Estatuto do Bolseiro de Investigação. Durante a reunião a tutela não apresentou à ABIC quaisquer propostas concretas.

Contrariamente às justas aspirações da ABIC, a tutela mostrou-se indisponível para rever o estatuto do Bolseiro de Investigação, discutindo apenas três questões pontuais que permitiriam, contudo, um avanço positivo face à actual situação.

O Senhor Secretário de Estado comprometeu-se em apresentar, antes do início da discussão do Orçamento de Estado na Assembleia da República, propostas relacionadas com:

1. a actualização do valor das bolsas;
2. a revisão do modelo de contribuições para a segurança social por parte dos bolseiros;
3. a maior fiscalização e combate às falsas bolsas que servem somente para suprir as necessidades permanentes das instituições em termos de recursos humanos.

Relativamente a cada um destes pontos -

1. A actualização das bolsas foi colocada como um imperativo, devido à perda de poder de compra dos bolseiros desde 2002, ano em que as bolsas foram aumentadas pela última vez. Foi referido, pelo SE, como já havia sido em alturas anteriores, que esta situação seria tida em conta aquando da elaboração do Orçamento de Estado e da sua discussão na AR. A ABIC considera ser fundamental a restituição do poder de compra perdido pelos bolseiros nestes sete anos.

2. foi discutida a necessidade de os descontos para a Segurança Social serem indexados ao valor da bolsa auferida. A ABIC considera absolutamente insuficiente o desconto relativo ao 1º escalão do Seguro Social Voluntário, previsto no actual estatuto, que compromete a reforma dos actuais bolseiros e o apoio na doença.

3. Relativamente às falsas bolsas, o SE afirmou ser também objectivo do governo acabar com este abuso e informou a ABIC que está em curso um inquérito às instituições, cuja finalidade é averiguar as tarefas dos diferentes bolseiros. O Secretário de Estado referiu que esta situação de falsas bolsas já se encontra resolvida quer na Fundação para a CIência e Tecnologia (FCT) quer no MCTES, onde proliferavam falsas bolsas com tarefas administrativas.

A ABIC reivindica a revisão do Estatuto do Bolseiro de Investigação como instrumento fundamental para a alteração do enquadramento jurídico dos bolseiros. O novo Governo, que, no que respeita à Ciência, mantém a mesma equipa ministerial, tem obrigação de conhecer aprofundadamente os graves problemas associados à condição de bolseiro e as justas reivindicações da ABIC. De facto, em diversos momentos reconheceu a razoabilidade das propostas da nossa associação. Perante uma ausência de qualquer medida durante mais de quatro anos e a falta de resposta às reivindicações da ABIC, continuaremos a lutar por melhores condições para os bolseiros e a revisão do seu estatuto.

Cientistas de Pé emprestam o seu humor ao projecto Simbiontes


(clique para ampliar)

19 de Dezembro às 18h00, os cientistas de pé juntam-se à Associação Viver a Ciência para angariar fundos para a investigação científica em cancro - o evento é de entrada livre, pode aproveitar para ver os quadros que ainda não foram vendidos e assim poder também contribuir para esta causa.

A Exposição Simbiontes, que está no Chiado desde 28 de Novembro e que pode ser vista até 23 de Dezembro, é constituida por obras produzidas por crianças em ambulatório no IPO de Lisboa e ilustrações do pintor da Ar.Co, Ângelo Encarnação. Os fundos a obter com a venda dos quadros serão aplicados num Prémio de investigação científica em cancro.

As peças artísticas tiveram origem numa série de ateliers pedagógicos e criativos no IPO de Lisboa, organizados pela Associação Viver a Ciência, em parceria com a Ar.Co, e inspirados no conto “A menina do Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Na sequência do projecto surgiu também o livro pedagógico “Os Amigos da Menina do Mar”, da autoria da bióloga da Associação Viver a Ciência Raquel Gaspar e com ilustrações de Ângelo Encarnação, que pretende explicar aos mais pequenos alguns dos mistérios relacionados com as espécies marinhas. Os lucros da sua venda juntam-se também ao fundo comum do projecto Simbiontes.

O projecto Simbiontes – que ambiciona envolver vários sectores da sociedade em torno da angariação de fundos para a ciência - é globalmente apadrinhado pela presidente da SIC Esperança, Mercedes Balsemão.

Mais informações: Blogue dos Cientistas de Pé, Projecto Simbiontes, Galeria Simbiontes Leilão Simbiontes a 28 de Novembro Exposição Simbiontes Livro "Os Amigos da Menina do Mar" Ângelo Encarnação expõe trabalhos no Chiado Plaza Mapa: Como chegar ao Chiado Plaza

EXUBERÂNCIAS DA CAIXA PRETA


Convite recebido do Instituto de Biologia e Medicina Molecular, Porto:

The IBMC.INEB, and all organization members of the "EXUBERÂNCIAS DA CAIXA PRETA a propósito d’ A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais de Charles Darwin" would like to invite you to the exhibition opening at the Museu Nacional de Soares dos Reis, OPorto, on the 17th of December 2009 by 6.30pm.

We invite you to reflect upon the Darwin’s book. This exhibition coexists between the physical expression of the emotions – stereotyped and deriving from our shared biology – and the extraordinary, and sometimes surprising, exuberance of its representations, inevitably resulting from our cultural and existential multiplicity, in which one reflects the other.

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

O português que se correspondeu com Darwin

Informação recebida da Editora Gradiva

Lançamento do Livro: O Português que se Correspondeu com Darwin, de Paulo Renato Trincão

Apresentação de Rosália Vargas.

Local: Livraria Bertrand Roma, Av. de Roma, n.º 13 B, Lisboa
Data: 16 de Dezembro (quarta-feira), às 17h30

"Esta obra, em forma de peça de teatro – que se quer lida e se exige representada em palco –, escrita por um divulgador de ciência, não por acaso geólogo e Doutor em Paleobiologia, coloca a cultura científica no palco, o que só pode ser positivo. Através dela podemos ver quem foi Charles Darwin. Geólogo? Biólogo? E também ter uma ideia sobre o impacto que as ideias de Darwin tiveram no Portugal do século XIX. Na comunidade científica de então, produziu-se uma tese de doutoramento, pelo ilustre biólogo e botânico Júlio Henriques, por muitos e longos anos voz científica quase única, o que convenhamos é muito fraco pecúlio para tanto potencial argumentativo, para tal revolução estruturante do pensamento biológico e, por que não, filosófico. No entanto, anos antes de Júlio Henriques e num contexto informal, houve um português, amanuense de profissão, curioso, observador e estudioso atento de coisas da Natureza, de seu nome Francisco de Arruda Furtado, que se correspondeu com Darwin. Pelo que sabemos dos escritos de Darwin, cujas cartas com Arruda Furtado são aqui traduzidas e apresentadas, foi o único português com que trocou correspondência. Sabendo-se que Darwin fazia questão de sempre responder a cada carta que recebia, esta pode ser uma medida do acolhimento das ideias de Darwin no Portugal do séc. XIX."

AMADEU SOARES, Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro

A flor máis grande do mundo

Em época de advento que se nos abre cada ano diferente, num encontro de cada um de nós e na dádiva ao outro, (re)visitemos «A flor máis grande do mundo», de José Saramago, numa curta metragem dirigida por Juan Pablo Etcheverry.

video

Delgado Domingos e Miguel Araújo debatem o Climategate

O DRN divulgou em 1.12.2009 um artigo publicado pelo Prof. Delgado Domingos no Expresso On line do dia anterior com o título "O escândalo do 'Climategate' e a Conferência de Copenhaga”. Num dos comentários que se seguiram neste blogue o Prof. Miguel Araújo escreveu: “Aqui fica uma desmontagem dos argumentos do artigo do Prof. Delgado Domingos. Sugiro que a bem da equidade seja dada tanta visibilidade a esta resposta ao artigo em discussão como este que aqui se divulga” (6.12.2009, 22:34). Este texto acabou por ser publicado no Expresso como artigo de opinião, sem referência à resposta que o Prof. Delgado Domingos dera entretanto no blogue.

Dada a relevância do debate travado entre os dois especialistas, a invulgar qualidade do mesmo e a actualidade e importância do tema, o DRN não só aceita a sugestão acima do Prof. Miguel Araújo como a alarga ao debate que originou e a seguir se reproduz. Apesar da dimensão, vale a pena ler até ao fim.

Miguel Araújo

Climategate:
Resposta a Delgado Domingos

No dia 30 de Novembro de 2009, Delgado Domingos escreveu um artigo de opinião no jornal Expresso onde acusa os investigadores envolvidos na troca de correspondência electrónica, roubada aos servidores da CRU (Climate Research Unit, da Universidade de East Anglia), de manipular dados para provar o aquecimento global considerando este alegado "climategate" como um dos maiores escândalos científicos da história.

A argumentação de Delgado Domingos centra-se em: A - Defender que não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global; B - Afirmar que os emails roubados demonstram uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática. No texto que se segue explicarei porque razão a argumentação de Delgado Domingos é equívoca e porque considero serem algumas das suas conclusões precipitadas.

A - Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global

Para consubstanciar esta ideia, Delgado Domingos recorre a dois exemplos. O primeiro é que a catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global. Esta é uma afirmação surpreendente. O Prof. Delgado Domingos sabe que não é possível isolar um evento meteorológico e atribuir-lhe uma tendência climática. Também sabe que a interpretação deste tipo de fenómenos se faz analisando séries temporais mais longas e interpretando-as à luz de teorias e modelos. Ou seja, qualquer afirmação sobre furacões e aquecimento global tem de decorrer da análise de séries temporais e da sua comparação com modelos que assumem interpretações alternativas dos mecanismos que governam o clima do planeta. Se é verdade que essas séries são escassas (no passado só se registavam eventos desta natureza quando causavam prejuízos em terra), também é verdade que a US National Hurricane Center analisa dados sistemáticos de furacões no Oceano Atlântico desde 1944. Finalmente, o Prof. Delgado Domingos deveria reconhecer que o IPCC não afirma que o furação de Nova Orleães se deve às alterações climáticas actuais. O que se afirma no relatório de 2007 (p. 281, Cap. The Physical Basis) é que se estima que os furacões do atlântico poderão tornar-se "menos frequentes mas mais intensos": "General features include a poleward shift in storm track location, increased storm intensity, but a decrease in total storm numbers".

O segundo exemplo é que a temperatura que, segundo os dados do UK Met Office, terá estabilizado desde 1998. Para completar este argumento deveria ter sido referido que 1998 foi um ano particularmente quente devido ao efeito El Niño e que 2008 foi um ano particularmente frio devido ao efeito La Niña. Ora todos sabemos que as projecções de tendências têm associadas a si uma variação interanual que é de carácter estocástico (melhor dizer, não se pode explicar à luz do conhecimento actual), e que escolher um ano quente para depois demonstrar uma evolução é negativa é certamente uma boa forma de produzir argumentos retóricos. A questão é se ajudará a compreender fenómenos complexos. Se é verdade que a estabilidade climática não pode ser inteiramente explicada pelos modelos actuais, também é verdade que simulações recentes demonstram ser prováveis ciclos de estabilidade climática seguidos de aumentos de temperatura e tudo indica que 2009 voltará a ser um ano quente. Delgado Domingos também se esqueceu de referir que, de acordo com os mesmos dados do UK Met Office, os 10 anos mais quentes do registo climático moderno registaram-se desde 1997.

Portanto e passando ao lado de se ter optado por ignorar a bateria de dados independentes sobre alterações climáticas no artigo do Expresso (designadamente os que advém da observação de como o sistema biológico responde a ela), é claro que a argumentação apresentada é, além de incompleta, rebatível.

B - Os emails roubados demonstram a existência de uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática.

Aqui Delgado Domingos parece misturar duas possibilidades distintas: a possibilidade de ter havido uma fraude que compromete a ciência climática no seu conjunto (a opinião veiculada no artigo) e a possibilidade de que tenham havido comportamentos eventualmente reprováveis por parte um grupo restrito de climatólogos sem que isso tenha tido consequências práticas ou que, a ter, tenha tido consequências limitadas. A primeira interpretação é, no meu entender, abusiva e carece de demonstração. A segunda está por comprovar e para isso foi nomeada uma comissão independente. Esta comissão analisará a totalidade da informação disponível e não só a que foi seleccionada e colocada fora do contexto para divulgação na Internet.

Além desta aparente "confusão" sobre as eventuais implicações do alegado "climategate", que pode ter levado Delgado Domingos a empolar algumas das palavras usadas no artigo do Expresso, há factos que nos dão indícios de que a interpretação de Delgado Domingos tenha sido precipitada. Se não vejamos: Delgado Domingos diz que houve uma tentativa de silenciar cientistas críticos, alterando "as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões". É verdade que, no calor do debate, dois artigos foram criticados (S. McIntyre and R. McKitrick, Energy Environ. 14, 751–771, 2003. e W. Soon and S. Baliunas, Clim. Res. 23, 89–110, 2003) e que se escreveu que estes deveriam ser erradicado do relatório do IPCC, mesmo que para isso fossem redefinidas as regras para inclusão de artigos no relatório do IPCC. As frases exactas terão sido: "I can't see either of these papers being in the next IPCC report" (diz Jones a Mann); "Kevin [Trenberth] and I will keep them out somehow - even if we have to redefine what the peer-review literature is"). Independentemente do que foi escrito nestes emails, em registo privado, o que interessa é o que foi feito. E o que foi feito é que ambos artigos foram referidos no relatório do IPCC pelo que não existe qualquer demonstração de fraude a este respeito.

Outro argumento utilizado para demonstrar a existência de uma fraude reside na sugestão de que os dados climáticos até 1960 terão sido destruídos. Aparentemente tal conclusão derivaria de uma frase de Phil Jones, num dos emails: "I think I'll delete the file rather than send to anyone". Mais uma vez, independentemente do que possa ter sido dito no contexto de discussões acaloradas estabelecidas entre colegas, em privado, a afirmação de que os dados foram destruídos já foi formalmente negada por Phil Jones (que será agora forçado a demonstrar que assim é na comissão de inquérito). A ser verdade que os dados tivessem sido suprimidos, seria obviamente gravíssimo. Porém, os dados continuariam a existir na sua fonte. Isto é, nos institutos que produzem os dados e os enviam ao CRU pelo que seria sempre possível voltar a juntá-los para reanalisar os dados.

No seu texto, Delgado Domingos faz outras afirmações excessivamente simplistas que comprometem a lógica do raciocínio apresentado. Por exemplo, numa passagem do artigo afirma que a "verdade [do aquecimento global actual] é incompatível com o Período Quente Medieval (em que as temperaturas foram iguais ou superiores às actuais apesar de não existirem emissões de CO2eq". Esta é uma afirmação provavelmente desactualizada. A verdade é que hoje se questiona que o Período Quente Medieval tenha sido um fenómeno global. Além do mais, é óbvio que o aquecimento actual é um período de aquecimento entre vários (ninguém o nega e o relatório do IPCC tem um capítulo inteiro sobre o assunto) e que no passado o planeta já foi exposto a temperaturas superiores às actuais. O último período com temperaturas superiores às actuais pode ter sido durante o último interglacial que ocorreu há cerca de 125.000 anos. Também é óbvio (e mais uma vez ninguém o nega) que o CO2eq é apenas um mecanismo, entre vários, a afectar a dinâmica climática do planeta. Neste contexto, interpreta-se mal que, na sequência da constatação acima referida, Delgado Domingos afirme: "Esconder ou suprimir estas constatações foram objectivos centrais da fraude científica agora conhecida".

Apesar das minhas profundas discordâncias com o tom, oportunidade e conteúdo do artigo de Delgado Domingos, há alguns pontos em que ambos partilhamos de pontos de vista comuns. Estes sintetizam-se numa das últimas frases do texto "Chame-se variabilidade climática ou alteração climática, os problemas de fundo da sustentabilidade ambiental permanecem e agravam-se pelo que devem ser atacados com determinação e realismo". Eu acrescentaria que uma excessiva focalização da actividade política sobre as ameaças das alterações climáticas pode ter efeitos contraproducentes (já está a ter, nalguns casos) na sustentabilidade global dos nossos recursos biológicos. É que alguns dos remédios apresentados para mitigar as alterações do clima e permitir a nossa adaptação aos mesmos têm efeitos negativos sobre o mundo vivo e sua capacidade de persistir num mundo em acelerada mudança. Este tema foi desenvolvido num artigo que pode ser lido aqui.

PS. Continuaremos a dar informação actualizada sobre o alegado "climategate". Para esse efeito criou-se uma etiqueta no blogue "Climategate" que permitirá aos leitores interessados o acesso directo a todos os artigos que foram escritos e divulgados sobre o tema. Como complemento a este artigo de opinião sugere-se a leitura dos editoriais das revistas Nature, Science, New Scientist e The Economist. Ainda que com pontos de vista nem sempre coincidentes, estes textos oferecem uma visão equilibrada e informada do tema em apreço.

Resposta de Delgado Domingos à Crítica do Prof. Miguel Araújo

Depois de ter afirmado que o Climategate era um “fait-divers, esquecendo que só o poderia ser para quem sejam triviais as praticas do restrito numero de famosos cientistas no centro do escândalo agora tornado publico, o Prof. Miguel Araújo, numa atitude que agradeço e muito apreciei, comentou o meu artigo de opinião no Expresso, afirmando que a minha argumentação se centra em : “A - Defender que não existe evidência de que o clima esteja a mudar; B - Afirmar que os emails roubados demonstram uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática”.

O Prof. Miguel Araújo sabe que as limitações de espaço num artigo para o grande público nunca permitem a fundamentação adequada das afirmações feitas, sobretudo quando contrariam as ideias dominantes. Além disso, o artigo foi editado pelo jornal (com o meu acordo, embora sem revisão do editado), que neste caso adicionou os títulos e acrescentou uma figura e um parágrafo para que o leitor soubesse o que era o hockeystick. O próprio jornalista fez uma notícia resumindo o que, no seu entender, era mais importante. O que o resumo omite e a edição desvalorizou completamente foi a exigência de que se consultassem os meus textos fundamentais sobre o tema (a maioria disponíveis na minha página, com destaque para aqui.) e de que são parte integrante as referências aos trabalhos científicos que as fundamentam, nomeadamente muitas das que o IPCC (WGI) utilizou. Se o Prof. Miguel Araújo tivesse feito aquela consulta não teria sido tão afoito a sugerir a minha ignorância face ao que se infere ser o seu conhecimento.

Respondendo agora de acordo com os seus capítulos.

A - Não existe evidência de que o clima esteja a mudar.

Na sequeência do pertinente comentário de um leitor do seu blogue, o Prof. Miguel Araújo alterou-o posteriormente para “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global”.

Se o Prof. Miguel Araújo tivesse sido rigoroso na síntese do que escrevi teria alterado um pouco mais o título para: “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global devido principalmente a emissões de CO2eq”.

O Prof. Miguel Araújo tece de seguida doutas mas triviais considerações sobre o que eu teria dito, mas não disse, acerca do IPCC e do furacão Katrina. Efectivamente, o meu texto refere-se ao que a maioria da comunicação social tem transmitido no seu afã alarmista, não ao que o IPCC ou cientistas credíveis tenham dito. Seja como for, reconhecer que o Katrina não é atribuível ao aquecimento global, como o IPCC faz e o Prof. Miguel Araújo vem lembrar, é reconhecer implicitamente que um desastre climático com aquela dimensão não é atribuído às emissões de CO2eq, o que corresponde a uma das teses centrais da minha posição. Afinal estamos de acordo!

A restante argumentação do Prof. Miguel Araújo exprime a confiança que os resultados dos modelos climáticos parecem inspirar a quem não domina em profundidade a fundamentação física e ainda menos a implementação computacional. Posso reivindicar, forçado mas sem falsa modéstia, e penso que sem grande contestação, que fui um dos pioneiros (há mais de 40 anos), pelo menos em Portugal, no desenvolvimento da hoje chamada Mecânica dos Fluidos Computacional, tal como fui eu que iniciei (há mais de 10 anos) a previsão numérica do tempo nas universidades portuguesas com a sua disponibilização diária e gratuita ao grande público (aqui e aqui). Os modelos climáticos mais citados são equivalentes a versões simplificadas dos que utilizo (AWRF e MM5, entre outros) para previsão e reconstrução de situações passadas. Posto isto, e como defensor que sempre fui e sou da utilização de modelos matemáticos como ferramenta imprescindível na compreensão dos fenómenos naturais, fico extremamente preocupado com o abuso que deles é feito e só pode levar ao seu descrédito com prejuízo para todos. Por isso, concordo inteiramente com o IPCC quando afirma:

«In climate research and modeling, we should recognize that we are dealing with a coupled non-linear chaotic system, and therefore that the long-term prediction of future climate states is not possible IPCC, 2001: Climate Change 2001: The Scientific Basis. Contribution of Working Group I to the Third Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change Houghton, J. T., Y. Ding, D. J. Griggs, M. Noguer, P. J. van der Linden, X. Dai, K. Maskell, and C. A. Johnson (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, UK, and New York, NY, USA, p. 774.

E estou tambem de acordo com um email de Kevin Trenberth, divulgado pelo alegado whistleblower do CRU, com data de 12.10.2009, para Michael Mann, em que afirma

The fact is that we can’t account for the lack of warming at the moment and it is a travesty that we can’t. The CERES data published in the August BAMS 09 supplement on 2008 shows there should be even more warming: but the data are surely wrong.”

O texto completo do email está aqui (e deve ser consultado para evitar acusações de citação fora do contexto. Aliás, no email também refere intervenções suas anteriores sublinhando a necessidade de mais e melhores dados de observação, com o que estou inteiramente concordo).

A publicação que serviu de base à minha afirmação de não haver aquecimento desde 1998 é a mesmo a que Kevin Trenberth se refere e eu próprio já tinha citado num artigo para o Jornal de Negócios publicado em 3.11.2009. Aliás, encontra-se também no site oficial do MetOffice. Considero Kevin Trenberth, lead author em praticamente todos os relatórios do WG1 do IPCC , um dos mais sérios e competentes cientistas em várias áreas da Ciências Físicas do Clima, razão porque aparece várias vezes citado em intervenções minhas anteriores. Devem-se a ele (ver Nature.com, Climate Feedback, 4.06.2007) as seguintes afirmações:

since the last IPCC report it is often stated that the science is settled or done and now is the time for action. In fact there are no predictions by IPCC at all. And there never have been”(...)

None of the models used by IPCC are initialized to the observed state and none of the climate states in the models correspond even remotely to the current observed climate”.


O Prof. Miguel Araújo sabe certamente que a formulação matemática fundamental dos modelos de previsão meteorológica/climáticos constitui um sistema de equações em derivadas parciais não lineares, cuja solução exige o conhecimento do estado inicial do sistema e as condições/ forçamentos na fronteira. Na perspectiva clássica da Física Matemática Linear, aquele sistema representaria um “problema fisicamente mal posto” pois uma pequena perturbação no estado inicial ou nas condições fronteira seria susceptível de originar uma grande alteração na solução. No actual estado do conhecimento, aquelas equações estão na origem da descoberta do bem conhecido caos determinístico. Neste contexto, as citações acima poderiam ser o ponto de partida para uma esclarecedora discussão no âmbito da teoria dos sistemas não lineares e do que podemos esperar do tratamento estatístico do universo de soluções geradas substituindo o desconhecido estado inicial por valores aleatórios. O frágil significado físico da estatística daquelas soluções constitui o fundamento das tão invocadas probabilidades de catástrofe de que o IPCC fala e os políticos transformaram em certezas.

Como muito bem sabe, o único meio de obter soluções relevantes para aquelas equações é por métodos numéricos e utilizando computadores. Sabe também que estas soluções numéricas são sempre aproximadas (neste caso ao nível da Física e das próprias equações matemáticas). O que talvez saiba menos bem, embora para os reais praticantes de modelos seja trivial e discutido nas publicações especializadas, é que as simulações de longo prazo sofrem do problema, ainda não adequadamente resolvido da deriva (“drifting”) o que obriga a forçar (“constrain”) as soluções a gamas pré-definidas. Tratando-se de situações passadas em que são conhecidos valores observados, os tais forçamentos consistem em fazer aproximar o mais possível as soluções daqueles valores. Tratando-se do futuro, não existe validação experimental possível sem ser à posteriori e o critério é comparar modelos diferentes e concluir que são fiáveis se não derem resultados excessivamente diferentes. O excessivamente diferente é subjectivo. Actualmente, nenhum dos modelos é capaz de prever o El Niño, a PDO ou a NAO, entre outros fenómenos climáticos fundamentais e bem conhecidos. Mesmo querendo desconhecer este facto, já existem suficientes previsões feitas no passado que permitem aferir da confiança que devem merecer para o futuro. Uma das mais famosas foi a de James Hansen (agora tão falado acerca de Copenhaga) pois foi com base nelas que em 1988 fundamentou o alarme do desastre climático dentro de 20 anos se as emissões de CO2eq não fossem drasticamente reduzidas. Vinte anos depois, em 2008, as emissões tinham excedido o pior cenário, mas o catastrófico aumento de temperatura não existiu (ver Christy, J.R., Written Testimony to House Ways and Means Committee, 25 February 2009). Isso não impediu James Hansen de pedir o fracasso da Confereência de Copenhaga por não ser suficientemente radical na abolição do carvão e das outras fontes de CO2eq, nem de pedir o julgamento por crimes contra a humanidade dos presidentes das companhias do carvão e das petrolíferas, nem de defender a desobediência civil, tal como não impediu a comunicação social que temos de dar o maior relevo a tudo quanto profetiza ou recomenda, enquanto faz tudo para que se esqueçam as suas previsões, profecias e recomendações passadas. Exagerando uma prática, também apontada ao recente Nobel da Economia Paul Krugman, as publicações estritamente científicas de Hansen são sérias e respeitadas, mesmo quando em total contradição com o que o seu activismo político o leva a declarar para o grande público. Na sua faceta de puro cientista é de sublinhar a declaração feita (ver J.Hansen at the Climate Change Congress, ”Global Risks,Challenges & Decisions”, Copenhagen, 11 March 2009) na reunião de cientistas realizada Março passado em Copenhaga como preparação para a Conferência do Clima em Dezembro:

We do not have measurements of aerosols going back to the 1800 – we don´t even have global measurements today. Any measurements that exist incorporate both forcings and feedback. Aerosol effects on clouds are very uncertain. I didn´t know what forcings to use when we started our IPCC runs 4 years ago, so I went to my grand children and asked them ‘ What is the net forcing?’

A questão levantada por Hansen ‘ What is the Net forcing?’ é honesta e profundamente esclarecedora para quem perceba bem o que os actuais modelos podem e não podem fazer. Os aerossóis, consoante a sua natureza e a altitude a que se encontram, tanto podem reforçar como diminuir o efeito do CO2eq, mesmo ignorando a sua influência nas nuvens. Sem medidas globais, o “Net forcing nem sequer é um palpite fundamentado para se tornar no parâmetro arbitrário que melhor reproduz períodos passados. Pela sua natureza, é diferente de modelo para modelo e tem que ser alterado consoante o período temporal que se quer reproduzir. Como o arrefecimento acentuado dos anos 40 era contrário aos modelos que previam aquecimento devido ao CO2eq, aumentou-se o peso dos aerossóis para fazer arrefecer e explicou-se que tal se devia ao maior uso do carvão e à poluição de uma indústria ainda sem controlo de emissões de poluentes atmosféricos. Como, a partir dos anos 80, foi necessário diminuir o seu peso porque houve aquecimento, explicou-se o resultado como sendo o efeito da legislação de combate à poluição atmosférica. O que se omitiu foi que, não havendo valores de observação, os valores escolhidos foram os que davam jeito. Em qualquer dos casos não se tratou de uma previsão, mas sim e quando muito de uma tentativa de explicação do que tinha sido observado. Como é evidente, estes modelos não têm capacidade para prever o futuro com a segurança suficiente para neles basear decisões políticas com as gigantescas implicações económicas e sociais das propostas dos alarmistas em Copenhaga.

Tendo em conta que todo o alarmismo referente ao aquecimento global devido a emissões de CO2eq tem como fundamento único os resultados dos modelos climáticos que o IPCC utilizou, ficaria profundamente reconhecido aos nossos colegas físicos, climatologistas, estatísticos, matemáticos, etc. se me demonstrassem que as minhas reservas quanto à fiabilidade dos resultados dos actuais modelos climáticos não têm fundamento. Espero, naturalmente, que essa demonstração não seja a ladainha da mera citação do que outros disseram mas sim uma opinião própria baseada no seu domínio das áreas científicas relevantes.

Peço desculpa, Prof. Miguel Araújo, se fui tão longo, embora muito longe de ser exaustivo, na resposta ao que diz que eu afirmei e condensou em A - “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global. Na verdade, o que efectivamente afirmo é: “Existiu um aquecimento global nos últimos 150 anos que não excedeu 0,8 ºC se os dados tomados como referencia pelo IPCC forem correctos. Na última década não houve aquecimento significativo face aos dados disponibilizados. Não existe evidência científica nem observacional sólida que permita afirmar ser aquele aquecimento devido, predominantemente, ao CO2eq. Existe uma influência directa da acção humana na alteração do clima, sobretudo observável e mensurável a nível local, resultante das alterações no uso do solo, tal como existe um agravamento dos efeitos de fenómenos climáticos devido ao modo como tem evoluído a ocupação do território pelas populações ”.

Acrescento ainda que um aumento de 0,8 ºC não tem nada de preocupante, tal como sublinho o facto de os alarmistas exaltarem um aquecimento crescente baseado em observações, mas omitindo, quase sempre, que os 0,8 ºC (possivelmente menos) abrangem mais de 150 anos.
É também importante sublinhar que a componente biótica, apesar da sua influencia no sistema climático ser um feedback reconhecidamente importante, é praticamente ignorada nos actuais modelos climáticos globais. Na verdade, a complexidade do sistema climático é demasiado elevada para que se justifique a presunção de que se conhecem todas as relações de causa-efeito que determinam os fenómenos observados e ainda menos a de que se sabem modelar e quantificar.

Reconhecer que se não sabe é um passo fundamental para se poder vir a saber.

Clarificado o que os actuais modelos climáticos podem e não podem fazer e reconhecido que não têm fiabilidade suficiente para neles basear politicas com tão gigantescas implicações, leva a perceber porque motivo o hockeystick se tornou politicamente tão importante e está no cerne do climategate. A extrordinária cruzada de promoção do hockeystick teve por finalidade convencer os políticos e a opinião pública de que o aquecimento global não teve precedente nos últimos 1000 anos pelo que, tendo tal aquecimento coincidido com o aumento antropogénico das emissões de CO2eq, só pode ter sido o aumento do CO2eq na atmosfera a sua causa determinante. Sublinhe-se que esta conclusão se baseia inteiramente na apresentação visual de uma correlação, seguidamente convertida numa relação de causa-efeito.

Este tipo de actuação lembra irresistivelmente a (pseudo) justificação/ legitimação da guerra do Iraque devido à existência de armas de destruição maciça, cujas provas se garantiu existirem e que o actual presidente da UE até disse ter visto. O famoso consenso assim obtido foi quase unânime. As provas eram falsas, mas a verdade só emergiu muito tempo depois e após centenas de milhares de mortos, de indizível sofrimento humano e de milhões de milhões de recursos materiais destruídos.

A segunda síntese que o Prof. Miguel Araújo fez do que eu supostamente disse foi:

B - Os emails roubados demonstram a existência de uma fraude científica que compromete a credibilidade da ciência climática.

O que escrevi foi:

“Em termos da comunidade científica, o Climategate é um dos maiores escândalos científicos da história, não só pelo modo como afecta a credibilidade pública da comunidade científica mas sobretudo pelas implicações económicas e políticas de que se reveste”.

E, mais adiante, “O comportamento escandaloso e intolerável de um grupo restrito de cientistas que atraiçoaram o que de melhor a Ciência tem (...)"


O Prof. Miguel Araújo tresleu o que afirmei. Como se constata, não só não restringi a credibilidade pública à “ciência climática” como tive o cuidado de cingir o comportamento inadmissível e intolerável “a um grupo restrito" de cientistas.

O Prof. Miguel Araújo afirma que confundi dois problemas distintos, mas a verdade é que na sua suposta identificação os confunde, o que dificulta a resposta. Comecemos pela minha afirmação de que o climategate afecta a credibilidade da comunidade científica. Trata-se, obviamente, de uma previsão que o tempo se encarregará de mostrar se foi ou não precipitada. Em meu entender, e no de muitos outros cientistas, a credibilidade da comunidade científica será tanto mais afectada quanto mais a dita comunidade se esforçar por ignorar/ negar a existência de actos reprováveis, por parte do tal grupo restrito, que atentou (comprovadamente) não só contra a lei, mas sobretudo contra princípios éticos fundamentais em Ciência. Esses princípios encontram-se nos códigos de conduta das melhores universidades e dos mais prestigiados centros de investigação. Para mim, este tipo de princípios não tem nada a ver nem com o que a lei diz ou pode dizer, pois também não fico à espera dos editoriais da Nature para julgar um comportamento face às documentadas provas públicas que já conheço. Extrapolando para o que se passa em Portugal, não sou dos que afirmam e praticam que “a ética na República é a lei”, pois tal tornaria legitimo tudo que a lei, interpretada por um tribunal, não condena.

Em meu entender, a crítica que o Prof. Miguel Araújo faz às minhas afirmações revelam que só agora despertou para o climategate e os seus antecedentes. O foco central do climategate foi a supressão de todo o período quente medieval que levou ao chamado hockeystick e à afirmação, que se tornou no ícone dos alarmistas, de que o aquecimento após o início da revolução industrial não tem precedente nos últimos 1000 anos e se deve à emissões de CO2eq. Questionado o fundamento dessa conclusão, os autores recusaram fornecer dados e algoritmos que permitissem verificar e reproduzir as suas conclusões. Esta recusa, que a Nature avalisou, é contrária a todo o espírito que deu credibilidade à ciência, e era, além do mais, ilegal, o que motivou uma intervenção do Senado Americano para obrigar os autores a disponibilizar os dados. Na sua sequência, a National Academy of Science (NAS) nomeou um painel, presidido pelo prestigiado e respeitado Prof. E. J. Wegman (Presidente da Sociedade Americana de Estatística) que elaborou o famoso relatório Wegman (disponível aqui), no qual se afirma, ps. 4 -5, que:

“In our further exploration of the social network of authorships in temperature reconstruction, we found that at least 43 authors have direct ties to Dr. Mann by virtue of coauthored papers with him. Our findings from this analysis suggest that authors in the area of paleoclimate studies are closely connected and thus ‘independent studies’ may not be as independent as they might appear on the surface. (…)
It is important to note the isolation of the paleoclimate community; even though they rely heavily on statistical methods they do not seem to be interacting with the statistical community. Additionally, we judge that the sharing of research materials, data and results was haphazardly and grudgingly done. In this case we judge that there was too much reliance on peer review, which was not necessarily independent. Moreover, the work has been sufficiently politicized that this community can hardly reassess their public positions without losing credibility. Overall, our committee believes that Mann’s assessments that the decade of the 1990s was the hottest decade of the millennium and that 1998 was the hottest year of the millennium cannot be supported by his analysis.”

O relatório faz, além disso, recomendações específicas quanto a trabalhos futuros nesta área. O grupo de autores aqui citado figura proeminentemente nos ficheiros agora divulgados e o tempo mostrou que as recomendações do relatório foram por eles sistematicamente ignoradas. O resultado esperável ficou agora à vista.

Consequência (alegadamente) directa desta comprovada “scientific misconduct” foi a criação de um blogue para defesa das suas teses com o pretexto de divulgar a ciência climática entre os não especialistas. Com o tempo, transformou-se na bíblia dos alarmistas, como muitos exemplos o documentam, não só em blogues como na imprensa (entre nós, o Público é um notório exemplo).

O Wegman Report é de 2006. A descrição e crítica de todo o processo (até ao presente), bem como a cópia ou link para os documentos mais importantes encontra-se no blogue de Steve McIntyre. Como seria de esperar, McIntyre é um dos que mais aparece, nos emails do climagate, como alguém a quem deve ser impedido, a todo o custo, o acesso aos dados e contra quem parecem ser justificadas todas as tentativas para o desacreditar cientificamente. McIntyre limitou-se sempre e só a exigir algoritmos estatísticos fiáveis, dados de qualidade comprovável e resultados finais replicáveis. Aliás foi ele que esteve na base da intervenção do senado que motivou o painel presidido por Wegman, o qual lhe veio dar razão.

Para quem tiver um mínimo de prudência e de preocupações de objectividade a consulta regular de ambos os sites acima referidos é fundamental. Se o tivesse feito, o Prof. Miguel Araújo não teria sido tão imprudente e precipitado nas críticas que me fez.

A fraude propriamente dita está claramente explicada e documentada no artigo do American Thinker,Understanding Climategate's Hidden Decline”, acabado de sair e disponível aqui. Um comentário muito pertinente a este artigo foi já feito pelo Eng. Rui Moura no seu blogue.

A minha afirmação de que dados base da rede de estações meteorológicas que serve de referencia ao IPCC para aferir o aquecimento global tinha sido destruída não se baseia, como procura inferir o Prof. Miguel Araújo, numa afirmação dos emails, mas sim em declarações de Phill Jones ainda antes do climagate, as quais foram posteriormente objecto de comunicado oficial.

Conclusão:

Descontadas as diferenças de estilo, de tom, de background científico e experiência profissional, as minhas posições de fundo e as que o que Prof. Miguel Araújo defende talvez estejam muito mais próximas do que superficialmente poderia parecer. Na origem da aparente diferença está o primarismo com que expeditamente se classifica de negacionista ou céptico ignorante quem não perfilha o “consenso” de um desastre climático global e iminente devido às emissões de CO2eq, tendo como fundamento o hockeystick e os actuais modelos climáticos.

Confrange-me que, genericamente, o movimento ambientalista tenha também aderido a este primarismo reducionista sem se dar conta que ao fazeê-lo sacrificou algumas das mais importantes causas por que se bateu e o credibilizaram para se transformar num avalizador de interesses que não domina. Justificar todos os meios e atropelos em nome duma mítica salvação da humanidade pode ser uma ideologia, uma religião ou um dogma, mas não é seguramente Ciência.

A minha intervenção nestes temas é motivada por convicções e conhecimentos científicos longamente sedimentados, tendo a consciência clara das suas implicações políticas. Não esperem por isso que dê prioridade a objectivos políticos em detrimento do que entendo ser o rigor científico e a minha responsabilidade social como engenheiro/ cientista.

Nota: São meus os sublinhados e negritos em todas as transcrições.
8 de Dezembro de 2009

Miguel Araújo (10.12.2009) respondeu do seguinte modo:
Caro Prof. Delgado Domingos,


Vamos lá então discutir alguns temas levantados pelo seu texto. Em primeiro lugar, devo um pedido de desculpa se retratei erradamente o conteúdo do seu artigo. Obviamente não era a minha intenção. Porém, existe uma diferença entre retratar erradamente as ideias veiculadas num texto e retratar erradamente um pensamento que, por algum motivo, não está inequivocamente explicado no texto. Ora eu entendo que os textos que aparecem nos jornais são frequentemente editados para melhor encaixar em critérios “jornalísticos” e os resultados são por vezes desastrosos. Por exemplo, mais do que uma vez as minhas declarações a jornalistas foram completamente deturpados. As deturpações mais graves ocorreram com a imprensa conservadora britânica que pretendia veicular opiniões cépticas e que distorceu o meu natural cepticismo científico e o converteu num cepticismo político. Portanto, não me surpreende que o seu texto tenha sido simplificado ao ponto de levar um apressado leitor a ler o que não era a intenção do autor.

Não obstante há alguns aspectos referidos no seu post que merecem ser esclarecidos. Avanço desde já que esta não é uma resposta aos inúmeros aspectos científicos que teremos de discutir e que surgem em diversas passagens do seu artigo, mas tão somente uma clarificação sobre interpretações e mal entendidos. Quando houver tempo escreverei sobre os outros assuntos, provavelmente em formato de post pois cada um dos temas em apreço merece um destaque especial.

Por exemplo, uma das suas críticas ao meu texto centra-se num dos sub-títulos que utilizo: “Não existe evidência de que o clima esteja a mudar a nível global”, argumentando que deveria ter acrescentado “devido principalmente a emissões de CO2eq”. Obviamente isto é tão desnecessário quanto a omissão do mesmo CO2eq no sub-título do seu artigo “Catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global”. Com a agravante que o seu subtítulo sugere que alguém (assumo eu: relevante) diz o que o seu subtítulo diz. Entendo agora que se estava a referir a jornalistas, mas francamente usar o argumento dos ciclones para consubstanciar um crítica à tese do aquecimento global é peculiar já que, de todos os eventos extremos, os ciclones são os que menos claramente se encontram associados ao aquecimento global no 4.º relatório do IPCC. Portanto, ao ler este argumento dos ciclones (e já agora o das cheias de Lisboa), não consigo evitar a sensação de que se está a simplificar o argumento adversário por forma a melhor fazer passar um argumento (ou seja, a lançar um “strawman argument”). É óbvio que é um absurdo considerar eventos extremos, de forma isolada, para fazer passar uma teoria geral sobre o funcionamento do clima. E é óbvio que sobre o valor destas caricaturas estaremos todos de acordo mas porque razão apresentá-las quando o debate está tão polarizado e é, geralmente, tão pouco informado?

Na sua resposta diz que reconhece existir um aquecimento de 0,8 ºC a nível global no século XX mas depois usa o argumento da estabilidade dos últimos 10 anos como demonstração que o CO2 não estará na origem do aquecimento. Quer isto dizer que o aquecimento do século XX é descontínuo – de origem natural - e que agora iniciaremos um período de arrefecimento? E se assim não acontecer, se este ano voltar a ser quente (e os próximos também) demonstra-se que o aquecimento global é de origem antropogénica e associado ao aumento de concentração de CO2eq? Imagino que não concorde com a segunda afirmação, mas se não o faz, como pode afirmar o contrário, i.e., que a ausência de aquecimento num dado horizonte temporal de 10 anos invalida a tese do aquecimento global? Em abono da verdade nenhuma das afirmações pode ser feita pois há limites sobre o que podemos interpretar a partir de correlações em séries temporais curtas e por isso a comparação de padrões climáticos observados com as projecções de modelos que incorporam diferentes assunções sobre os mecanismos que governa o clima ajuda (tema para mais tarde).

A segunda parte da sua crítica ao meu texto versa sobre a questão do alegado escândalo científico. Agradeço os seus esclarecimentos sobre o assunto mas o essencial do meu argumento é que, da leitura dos emails publicados, não está provado que existe um escândalo, pelo que é apressado classificá-lo como um dos maiores da história. Neste caso o alegado escândalo alicerça-se nuns “tricks” estatísticos, na não disponibilização de dados a pares, na destruição dos mesmos, na censura de artigos no relatório do IPCC. Ora todos estes aspectos dos emails já foram contestados publicamente e, se estamos de acordo que é necessário esclarecer este assunto de forma cabal (e tenho a certeza que tal será feito), também é verdade que a evidência vinda a lume com os emails roubados é, no mínimo, parcial e ambígua sendo portanto apressado fazer julgamentos bombásticos como aquele que fez no Expresso.

Comentários sobre questões menores:

- Não, não acordei para o debate climático recentemente (mas, sim, é verdade que não tenho por hábito acompanhar as polémicas climáticas nos blogues). Na realidade quem conhece o meu percurso sabe que comecei por ter posições muito próximas das suas – senão mais extremas – mas com o acumular de evidências em vários campos concluí que a balança pesava a favor da tese maioritária. Certezas? Não existem em ciência mas isto não nos impede de termos teorias mais ou menos robustas que são descartadas quando substituídas por outras mais credíveis. Ora o que nos falta é uma teoria alternativa, credível. Na ausência de tal teoria , é normal aceitar provisoriamente a que existe.

- A minha afirmação sobre “fait divers” tem um peso meramente semântico, como já tive oportunidade de explicar a colegas. Por defeito profissional estou habituado a distanciar-me dos eventos e procurar analisá-los como se fossem passados. Ora a minha opinião é que o “climategate” não terá consequências maiores pois: 1) não falsifica as teses actuais; 2) não terá um efeito duradouro sobre a credibilidade da ciência pois os factos científicos são sólidos, provêm de diversas fontes (não só da extensa rede dos autores visados) e continuarão a acumular-se; 3) o curso das políticas continuará independentemente dos emails, como se está a constatar com a cimeira de Copenhaga; e 4) é provável – mas obviamente temos de esperar pelos resultados – que se comprove que a “montanha pariu um rato” no que toca o alegado escândalo. Veremos, mas se tudo o que eu disse neste parágrafo se verificar, daqui a uns anos será mais fácil concordar que isto foi um “fait divers”.

Esclarecidos estes mal entendidos de menor importância, espero que possamos agora centrar-nos nos temas que realmente interessam.

A resposta do Prof. Delgado Domingos foi posta no blogue, tal como as anteriores, pelo Prof Miguel Araújo, que a precedeu do seguinte comentário:

Em seguida publicarei mais comentários do Prof. Delgado Domingos. Pela parte que me toca este comentário do Professor fecha um ciclo de debate sobre a questão das interpretações sobre o que cada um disse e quis dizer. Fico muito agradecido ao Prof. Delgado Domingos pela disponibilidade para conversar no blogue e esclarecer os mal entendidos. Foi uma honra poder estabelecer este diálogo directo com o autor de algumas obras que tanto influenciaram o meu pensamento quando era mais jovem. Refiro-me, nomeadamente, à obra "Inteligência e Subserviência Nacional" que, sendo um texto datado, ainda hoje tem muito elementos de actualidade. Abaixo segue então a sua resposta dividida em várias partes...

Resposta de Delgado Domingos (11.12.2009) ao comentário anterior:

Caro Prof. Miguel Araújo

Agradeço os comentários que fez (em 10.12.2009) ao que escrevi e dos quais só tomei conhecimento depois de responder genericamente a outros bloguistas. Era louvável que o tom utilizado no blogue seguisse o seu exemplo.

Seria indesculpável se eu tivesse afirmado que o Prof. Miguel Araújo Miguel só agora despertou para o debate climático. Não. Não foi para o debate climático mas sim para o climategate e os seus antecedentes”. E os antecedentes são fundamentais, porque o cerne da questão nem sequer teve a ver com Ciências do Clima, mas sim e apenas com Estatística, qualidade e representatividade dos dados e fiabilidade das conclusões. A Estatística é uma área reconhecida do conhecimento científico, com métodos bem testados e consagrados e nos quais se baseiam decisões de milhões de milhões de euros em operações de bolsa e em tudo que se refere a investimentos na exploração de jazidas de recursos naturais, seja de petróleo, de urânio, etc. É por isso que os antecedentes que motivaram o U.S. HOUSE COMMITTEE ON ENERGY & COMMERCE a solicitar a criação do painel presidido por Wegmam (um prestigiado professor de estatística) são tão importantes. Sobre isto, remeto para o que já escrevi no comentário genérico aos outros bloguistas. No entanto, chamo a atenção para mais um importantíssimo contributo de Steve McIntyre (aqui) pois coloca no adequado contexto a parte mais significativa dos emails do climategate. A serenidade, objectividade e contenção, deste revisor convidado do IPCC para o capítulo central da polémica, levam-me a recomendar vivamente a sua leitura a todos que desejam ter uma opinião própria e fundamentada do climategate e das suas implicações. Permito-me, por isso, sugerir ao Prof. Miguel Araújo que o analise atentamente antes de voltar a insistir nas críticas que já me fez sobre este assunto.

Tendo-se tornado indesmentível que eu reconheço a existência de um aquecimento global que nos últimos 150 anos não excedeu 0,8 ºC (e que nas décadas de 30-40 teve taxas de crescimento médio anual superiores às das seguintes décadas) a que se seguiu um arrefecimento, não percebo porque motivo é contestada a minha afirmação, baseada em dados supostamente fiáveis, de que não há aquecimento assinalável desde 1998. Não fiz inferências para o futuro mas sublinhei que as emissões de CO2eq não pararam de crescer apesar de os modelos do IPCC preverem todos um aquecimento com aquela origem, que não se verificou. No estado actual do conhecimento, todas as previsões se baseiam em modelos e estes merecem-me as reservas fundamentadas que anteriormente explicitei. As afirmações que me atribui - “usa o argumento da estabilidade dos últimos 10 anos como demonstração que o CO2 não estará na origem do aquecimento” e “a ausência de aquecimento num dado horizonte temporal de 10 anos invalida a tese do aquecimento global” - não só não as fiz como não fariam sentido face ao que sempre escrevi. A única conclusão que se pode legitimamente extrair do que escrevi é que os resultados dos modelos falham rotundamente a previsão. Nada mais. O que se verifica, fazendo justiça à útil e interrogativa afirmação que fez, é a recusa em aceitar a ausência de uma causa que não seja predominantemente devida ao CO2eq. A interpretação feita pelo Hadley Centre (entre outros), foi a de que o não aquecimento global recente se deveu à predominância duma variabilidade climática natural de arrefecimento sobre o aquecimento devido ao CO2eq. Esta interpretação, implica o reconhecimento de que a variabilidade natural é, pelo menos, tão grande como o aquecimento que os modelos actuais atribuem às emissões de CO2eq. O El Niño e La Niña, p. ex., têm sido repetidamente utilizados para este tipo de justificação. Neste contexto, o que tenho repetidamente dito é que a variabilidade natural é demasiado importante para que se subalternize o combate aos seus efeitos. Se, para os combater, bem como para a concretização da imprescindível mutação energética, fossem canalizados os fundos que se discutem em Copenhaga desapareciam as miragens tecnológicas da CCS (captura e sequestro do CO2) e a energia nuclear como salvação, de entre muitos efeitos que considero perversos. Como os políticos que temos se guiam cada vez mais pelas sondagens de opinião, e essa opinião é sobretudo criada pelos grandes órgãos de comunicação social e como esta, tanto de forma directa como subliminar, associa praticamente todas as catástrofes climáticas ao aquecimento global provocado pelas emissões de CO2eq, é evidente que um artigo dirigido ao mesmo público teria de utilizar idênticas imagens e exemplos para assinalar o embuste dos que invocaram como causa o aquecimento global provocado pelo CO2eq.

Para os especialistas do que diz o IPCC, para os professores, investigadores e universitários em geral, já tinha escrito, há mais de um ano, um texto com linguagem mais apropriada para esse tipo de audiências. Esse texto foi pré-publicado no blogue De Rerum Natura e aberto aí à discussão, disponibilizado na minha página da Internet e publicado como capítulo do livro “A Energia da Razão”, na sequência de um encontro realizado pela Universidade Técnica de Lisboa. A edição, feita pela Gradiva, foi coordenada pelo Prof. Ramôa Ribeiro, antigo Presidente da FCT e actual Reitor da UTL. Nesse livro são também autores, entre outros, o Prof. Filipe Duarte Santos e o Prof. Viriato Soromenho Marques (consagrados especialistas de alterações climáticas para a nossa comunicação social e organismos públicos afins). Apesar das múltiplas oportunidades e das próprias solicitações directas, continuo a desconhecer críticas fundamentadas que eles ou outros possam ter feito ao que escrevi. É por isso que o Prof. Miguel Araújo, efectivo e reconhecido participante nos Relatórios do IPCC (os acima citados nem sequer são mencionados, seja a que título for), merece um louvável e honroso destaque entre os cientistas portugueses, o que não tem nada a ver com a nossa eventual divergência de opiniões. Caro Prof. Miguel Araújo, sejamos muito claros: os exemplos que dei no Expresso e poderia repetir às dezenas, referem-se a exemplos dados pela comunicação social, nomeadamente o Expresso, o Público, a National Geographic, etc., e toda a TV. Afirmar que o IPCC os não usou, vem apenas dar-me razão.

Também penso que o debate desta questão está encerrado entre nós. Aguardo com o maior interesse o seu prometido post sobre questões científicas de fundo. Não deixarei de corresponder no que puder e souber.

Lisboa, 12.12.2009

Na resposta anterior ao Prof.Miguel Araújo, o Prof. Delgado Domingos remete para uma resposta genérica a comentários anteriores, a qual pode ser consultada no blogue da Ambio. Dessa resposta genérica reproduz-se em seguida o que consideramos mais relevante.

Delgado Domingos: Resposta a Comentários

Não é meu hábito participar nos comentários que habitualmente se seguem ao que escrevi, ou disse, sobretudo quando estão em causa questões científicas e se aproveita o pretexto para ataques pessoais ou militância por causas ideológico/ religiosas por mais legítimas e respeitáveis que possam ser.

Os termos em que me comprometi a responder, neste blogue, na resposta às críticas que me fez Miguel Araújo, são bem claras e vou repeti-las:

“Ficaria profundamente reconhecido aos nossos colegas físicos, climatologistas, estatísticos, matemáticos, etc se me demonstrassem que as minhas reservas quanto à fiabilidade dos resultados dos actuais modelos climáticos não têm fundamento. Espero, naturalmente, que essa demonstração não seja a ladainha da mera citação do que outros disseram mas sim uma opinião própria baseada no seu domínio das áreas científicas relevantes” .(...)

Permitam-me agora, os restantes comentadores, que restrinja o comentário ao que se me afigura de mais relevante. Aparentemente, a minha sumária referência ao blogue do Eng. Rui Moura, estimulou umas quantas diatribes só pelo facto de o citar. Deploro veementemente esta atitude, pois este blogue, tal como este, p. ex., tem tido um papel relevante na divulgação de informações significativas que de outro modo teriam passado despercebidas para a maioria. Mas uma coisa é a informação objectiva, outra a interpretação pessoal que lhe é dada pelos autores do blogue. Na informação objectiva, não encontrei erros dignos de menção, tanto mais que a sua prática tem sido a de incluir a sua reprodução ou o link para o documento original. Quanto às interpretações pessoais, discordo de muitas, mas isso não me impede de reconhecer que o confronto com as suas ideias tem sido um útil teste para as minhas. É assim que se progride.

Houve também crítica ao facto de o link para o Wegman Report estar no site de um conservador americano levando a supor que o relatório exprimia a sua posição pessoal. Na verdade, trata-se de um documento oficial da U.S. House Committee on Energy and Commerce, actualmente presidida por um democrata, o bem conhecido Henry A. Waxman, co-autor da proposta de Cap & Trade em discussão no Senado e completamente insuspeito de simpatias cépticas ou negacionistas. Será que um documento, numa Comissão oficial, muda de validade ou credibilidade consoante o site que fornece o seu link ou consoante o Presidente da U.S. House Committee on Energy and Commerce. Penso que não. Acresce que o documento foi elaborado por um grupo, sem remuneração, sob a presidência de uma personalidade científica e não política.

Para quem deseja ter um conhecimento fundamentado e se recusa a emitir juízos baseados em preconceitos e aparências o resumo do relatório encontra-se em U.S. HOUSE COMMITTEE ON ENERGY AND COMMERCE PRESS OFFICE, (202) 225-5735. Como o site daquela Comissão tem muitos documentos, o link mais directo para ele é este. Recomendo vivamente a consulta deste fact_sheet completo, que não citei na minha resposta a Miguel Araújo e de que reproduzo em seguida o que me parece fundamental a propósito do comentário que me foi feito, além de me permitir corrigir lapsos formais de que entretanto me dei conta, nomeadamente gralhas: p. ex. , onde anteriormente escrevi NSA (National Science Foundation) deveria er escrito NAS (National Academy of Science). Agradeço desde já a quem me apontar este tipo de erros.

Numa transcrição parcial do documento pode ler-se:

“Report Raises New Questions
About Climate Change Assessments (...)
Background: On June 23, 2005, following reports of a dispute surrounding two key historical temperature studies prominently used in the U.N.’s Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) 2001 assessment report, the Energy and Commerce Committee wrote the three authors of the studies, the IPCC, and the National Science Foundation for information relating to the use of the studies by IPCC.
The studies in question, by Dr. Michael Mann, et al, formed the basis for the IPCC assessment’s conclusion that the increase in 20th century Northern Hemisphere temperatures is “likely to have been the largest of any century during the past 1,000 years” and that the “1990s was the warmest decade and 1998 the warmest year” of the millennium.
Questions about the reliability of the Mann studies were of interest because they raised policy-relevant questions concerning the objectivity of the IPCC and its reliance upon and “promotional” use of the studies’ ‘hockey stick’ shaped historical temperature reconstruction.
Following receipt of the letter responses, committee staff informally sought advice from independent statisticians to determine how best to assess the statistical information submitted. Dr. Edward Wegman, a prominent statistics professor at George Mason University who is chair of the National Academy of Sciences’ (NAS) Committee on Applied and Theoretical Statistics, agreed to independently assess the data on a pro bono basis. Wegman is also a board member of the American Statistical Association.
About the Wegman committee: Dr. Wegman assembled a committee of statisticians, including Dr. David Scott of Rice University and Dr. Yasmin Said of The Johns Hopkins University. Also contributing were Denise Reeves of MITRE Corp. and John T. Rigsby of the Naval Surface Warfare Center. All worked independent of the committee, pro bono, at the direction of Wegman. In the course of Wegman’s work, he also discussed and presented to other statisticians on aspects of his analysis, including the Board of the American Statistical Association.
Among the panel’s findings and recommendations: (…)”


Não reproduzo esta parte porque desejo acreditar que quem desejar comentar começou pela sua leitura atenta e pelo relatório completo. Links para ambos podem ser encontrados aqui.

Estes, como outros documentos, devem ser avaliados pelo seu conteúdo e por quem domina o assunto. É por isso que daqui faço um apelo veemente aos nossos especialistas em Estatística para que os analisem em profundidade e os comentem. A questão central no hockeystick tem puramente a ver com Estatística. A questão da qualidade dos dados só surgiu depois de a Estatística ter mostrado que eram inconsistentes com as conclusões vertidas para o IPCC.

Tenho também de reiterar que a minha escolha dos autores que cito não parte de pré-julgamentos acerca do que podem ou não ser as suas convicções mas sim do fundamento que dão às conclusões que extraem. Tenho também o cuidado de examinar, tanto quanto possível, as posições contrárias. E agradeço sempre que me apontam falhas, omissões ou conclusões indevidamente justificadas.

O (...) faz comentários pertinentes, a alguns dos quais já respondi na generalidade, mas que convém esclarecer. No que se refere à Guerra do Iraque e a Hans Blix (com quem tive recentemente o gosto de conversar sobre este e outros assuntos), a verdade é que as suas informações de que não havia no Iraque armas de destruição massiva foram ignoradas e ele demitiu-se. O que é relevante e justificou a minha escolha do exemplo é o facto de as suas declarações não terem tido eco suficiente na comunicação social para alterar o consenso dominante. A analogia com o que se tem passado com os chamados cépticos do aquecimento global é semelhante. Em ambos os casos trata-se fundamentalmente de política, embora no caso dos alterações climáticas envolva cientistas para as credibilizar.

Quanto ao IPCC é fundamental distinguir o relatório fundamental, que é o do WG1, do seu resumo (SPM-Summary for Policy Makers), pois o SPM foi elaborado com finalidade política e para ser votado linha a linha pelos representantes oficiais dos governos e de organizações não governamentais. Além disso foi elaborado por um grupo muito reduzido de autores. Entre o relatório do WG1 (com 996 páginas) e o respectivo SPM (18 páginas) há enormes diferenças como já mostrei em trabalho anterior e cuja leitura considerei obrigatória (na minha reposta a Miguel Araújo), para quem me quiser criticar. Mais grave ainda do que o SPM é o facto de uma esmagadora de jornalistas, de políticos e de comentadores nunca terem lido sequer nenhum destes documentos e se ficarem, na melhor das hipóteses, pelos comunicados de imprensa para não dizer dos seus resumos (basta considerar a generalidade dos grandes meios de comunicação em Portugal para se ter uma ideia esclarecedora).

Sempre considerei o relatório do WG1 como referência muito importante (mau grado as divergências quanto a alguns aspectos), tal como sempre pus as maiores reservas ao seu SPM, pois distorce, com finalidades puramente políticas, os factos científicos e conclusões discutidas pelo WG1. Por isso, nunca aceito referencias genéricas, nem quanto a qualidade nem quanto a fiabilidade das conclusões do IPCC sem clarificar primeiro a que documento se referem. Um só exemplo das falsas informações que massivamente circulam por aí: nem o IPCC enquanto organismo, nem o WG1 nem o SPM indicam 2 ºC como o limite para o desencadear da catástrofe nem tão pouco um limite aos ppm de CO2eq que a provocariam. Tais valores são puras decisões políticas destinadas a convencer a opinião pública com a aparência do rigor e da certeza.

Também não aceito a tese conspiratória de que um trabalho que foi pago reflecte necessariamente os propósitos do financiador, sem deixar de reconhecer que em certos casos o foi. Se aceitasse genericamente esta tese, condenaria imediatamente todos os que Al Gore financiou e/ou promoveu através da sua Repower América, entre outros, ou os realizados com financiamento dos governos (será que os objectivos dos políticos no governo são sempre louváveis e os das petrolíferas e outros de que se não gosta sempre perversos?) . Também não sei como teria de classificar as tentativas do CRU, etc., para obter financiamentos da Shell e da BP, como os emails agora divulgados revelam. É por isso que tenho novamente de reafirmar que os documentos valem pelo que contêm e que um trabalho peer-reviewed, só por o ter sido, não garante a qualidade e a verdade, mas apenas que merece, em princípio, ser escrutinado com atenção e competência tanto maiores quanto maior for o seu potencial impacto social e económico. Também não tenho nada contra os blogues que transmitem informação objectiva que pode ser comprovada. Goste-se ou não, os blogues são a forma disponível e mais eficaz de combater o pensamento único pelo cidadão comum. Como sempre há de tudo, do muito bom ao execrável, e por isso nos confrontam com o imperativo de saber ter e fundamentar uma opinião própria e informada, sem o que uma real Democracia é impossível. Penso que o climategate vai ser um “turning point” para o modo como os académicos olham para os blogues, assim como para muitas mais coisas.

10 Dezembro 2009

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Mulheres cientistas: um olhar para a Ciência

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

TERTÚLIA DE CIÊNCIA

MULHERES CIENTISTAS: UM OLHAR PARA A CIÊNCIA

Conferencista: Maria da Graça Martins Miguel (Departamento de Química da Universidade de Coimbra)

16 de Dezembro, 17h00.

Resumo:

Desde há muitos anos, elas têm descoberto galáxias, formulado teoremas, sintetizado elementos químicos e investigado segredos da matéria e da vida. Mas muitas cientistas são desconhecidas, apesar de as suas descobertas terem sido decisivas para a Humanidade.

Em Portugal, e na Europa em geral, as mulheres estão cada vez mais presentes nas várias áreas da investigação científica. Contudo, elas, paradoxalmente, continuam longe do topo das carreiras, dos círculos do poder e dos centros de decisão, como reflectem as mais recentes estatísticas.

São necessárias estratégias que revertam esta situação, de modo a optimizar a capacidade de intervenção das mulheres e a utilizar os enormes benefícios que dela podem advir.

Vislumbram-se no horizonte alguns esperançosos indicadores. Com trabalho e persistência, irá aumentar a auto-confiança e a participação das mulheres na ciência e tecnologia. A ciência pertence a toda a Humanidade, transcendendo questões de género. Mulheres e homens possuem objectivos comuns na decifração dos mistérios da Natureza.

Museu da Ciência, Largo Marquês de Pombal, 3000-272 Coimbra
Email: divulgacao@museudaciencia.org; Tel. 239 85 43 50; Fax. 239 85 43 59

PESOS E HALTERES: EM MEMÓRIA DE AUGUSTO TITO DE MORAIS

Deparei-me hoje com um blogue de homenagem a Manuel Tito de Morais, um dos fundadores do Partido Socialista, no 10.º aniversário da sua morte. Nele, Pedro Tito de Morais recorda, entre outros familiares, o seu tio Augusto Tito de Morais, também já falecido, professor catedrático do Instituto de Medicina Tropical, médico da Organização Mundial de Saúde que, nessa qualidade, viajou pelas sete partidas do mundo.


A páginas tantas, escreve que ele “aos 20/30 anos foi trapezista e tinha muito orgulho nisso”. Pela minha parte, julgo de interesse acrescentar ao seu currículo desportivo a sua qualidade de dedicado praticante de pesos e halteres, como escrevi na dedicatória de um dos meus livros, publicado em 1972, “Os pesos e halteres, a função cardiopulomonar e o doutor Cooper”. Reza essa dedicatória:

“Dedico este livro a Augusto Tito de Morais, grande entusiasta dos pesos e halteres, companheiro das lides desportivas, médico virado para os problemas da investigação, no Instituto de Investigação Médica de Moçambique, e, sobretudo, querido Amigo.

Um objectivo comum nos unia: a divulgação da modalidade, como meio seguro em preservar a saúde, e a sua intransigente defesa. Daí, o despontar de uma indefectível amizade.

Ao serviço dos 'ferros' pusemos os nossos conhecimentos sobre o corpo humano, transmitindo-os aos outros, sem jactância, por conferências proferidas na Associação dos Naturais de Moçambique, e nos debates que se lhes seguiam, sempre calorosos, norteados no amor à Cultura Física e na procura de um mesmo fim, através de proposições diferenciadas ou caminhos divergentes, qual deles o mais apressado na desmistificação dos sobranceiros contraditores dos pesos e halteres. [De entre eles, o supracitado doutor Kenneth Cooper, autor do famoso Teste de Cooper para avaliação da capacidade aeróbica].

Abandonou, há anos, o Dr. Tito de Morais, o campo de batalha moçambicano, no alcance de novos horizontes: médico da Organização Mundial de Saúde, dedica-se, nos dias de hoje, ao seu semelhante nos mais recônditos pontos globo. Resto eu, que aqui de Moçambique, lhe envio – sem saber se o recebe ou não – o amplexo forte do camarada de armas que prossegue a luta na lembrança de antigas escaramuças que estão longe de ter conduzido à vitória final.

A verdade tem o seu preço, tanto mais elevado quanto menor o número daqueles que a procuram”.

Na altura, enviei-lhe o livro. Encontrava-se então Augusto Tito de Morais em missão no Cambodja. Passados meses tive a confirmação da sua recepção por carta do destinatário.

Anos mais tarde (2001), enviei também o livro ao médico fisiatra Prof. Dr. José Maria Santarem, fundador do Centro de Estudos em Ciências da Actividade Física e de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brasil. Passados pouco tempo recebi o seguinte mail:

“Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta. Nossos ideais são comuns, e as nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação e do conhecimento de então. Meu desejo é que um dia nos possamos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado. Um fraterno abraço. Santarem”.

Julgo que Augusto Tito de Morais teria gostado de saber que a nossa constante e entusiástica campanha em defesa dos vilipendiados “ferros” não foi em vão!

O TRATADO DE LISBOA NÃO COMEÇA BEM

Artigo de opinião recebido de António Mota de Aguiar:

Alguns dos que se congratularam por ver o Tratado de Lisboa entrar em vigor, como é o meu caso, ficaram admirados, para não dizer chocados, por verificar a falta de transparência na nomeação do Presidente do Conselho da Europa, o belga Herman van Rompuy, e da Alta Representante para os Negócios Estrangeiros, a britânica Catherine Ashton, os dois cargos máximos da União Europeia (UE).

O Sr. Herman van Rompuy será o presidente do Conselho europeu, que tem como objectivo fixar as orientações políticas e estratégicas da UE, representando-a ao mais alto nível.

A baronesa Catherine Ashton foi encarregada de contribuir para elaborar a política externa e de segurança da UE, para além dirigir um novo serviço externo, do qual fazem parte os diplomatas dos Estados membros, tendendo para a criação de uma cultura diplomática europeia comum.

No caso de Herman van Rompuy, conhece-se o seu talento para chegar a consensos entre flamengos e valões. Já no caso de Catherine Ashton, a baronesa não tem nenhuma experiência para o cargo que ocupa (além disso, nunca foi eleita para nenhum cargo, isto é, foi sempre nomeada). Reconhece-se tão só o mérito de ter contribuído para a aprovação do Tratado de Lisboa pela Câmara dos Lordes britânica e, desde Outubro passado, de ter sido Comissária para a área do Comércio no gabinete de Durão Barroso.

Serão os currículos destas duas pessoas suficientes para liderar com eficiência os lugares que vão ocupar, com todos os problemas gravíssimos que o mundo hoje enfrenta? Analistas do El País e do Le Monde escreviam recentemente sobre estas nomeações:

- “Se desconocen sus opiniones (de Catherine Ashton) o ideas en el mundo de las relaciones externas”.

- “Ce sont des personnalités de faible envergure qui ont été nommées.

Talvez tenha sido o baixo perfil destas duas pessoas para os cargos que vão ocupar que valoraram os responsáveis máximos europeus, receosos da perda das suas prerrogativas nacionais. Se for este o caso, então a UE vai avançar a passo de tartaruga!

Critique-se também o facto de ter sido atribuído um alto cargo a uma cidadã de um país que não faz parte da zona euro nem do espaço Schengen, além de ter desvalorizado ao longo dos anos, como é bem sabido, a construção europeia.

A nomeação destas duas personalidades, desconhecidas da quase totalidade dos 500 milhões de europeus, de uma forma tão secreta e tão rápida não augura grandes sucessos na condução da política europeia, e agravará o distanciamento dos cidadãos relativamente às instituições.

A meu ver, a única forma de defender os interesses da Europa consistirá em responder aos desafios de desenvolvimento económico, social e político, fortificando a coesão dos povos europeus, com base nos padrões de democracia e liberdade da UE. Mas, para isso, é preciso uma forte vontade política. Oxalá as duas pessoas escolhidas venham num futuro próximo a dissipar as dúvidas e preocupações que os europeus têm neste momento a seu respeito.

António Mota de Aguiar

Money makes the education go round - 2

Texto na sequência de outro que poderá ser lido aqui:

Espero que o leitor não me interprete mal quando afirmo que o investimento no ensino e na aprendizagem não pode ser apresentado como estando directa e linearmente dependente de “incentivos financeiros”. Obviamente, não defendo o empobrecimento dos professores, defesa que se fez em tempos que se esperam passados, sob o pretexto destes, por terem sido alvo de um “chamamento interior”, decidirem dedicar-se a uma missão, mais do que a uma profissão. Obviamente, também não defendo que devam ser retiradas todas as bolsas de estudo aos alunos, pois sem elas seria impossível a muitos deles estudarem.

O que defendo é que os “incentivos financeiros” não podem ser apresentados como condição necessária e suficiente para ensinar e para aprender, pois entendo que estas duas actividades têm valor em si mesmas.

Sabemos que o ensino e a aprendizagem não acontecem no vazio, que estão relacionadas com as circunstâncias em que ocorrem, e sabemos também que as circunstâncias lhes podem ser favoráveis ou desfavoráveis, mas, ainda assim, não podemos confundir a essência do ensino e da aprendizagem com as suas circunstâncias.

O que nos diz a pedagogia sobre o assunto, no que respeita ao ensino? Nesta área disciplinar fizeram-se investigações sobre as principais preocupações dos professores? Se sim, as preocupações com os “incentivos financeiros” são as mais evidenciadas?

A resposta é a seguinte: dispomos de numerosas investigações sobre o assunto, realizadas em diversos países, desde os anos de 1960 até ao presente. Os resultados de estudos de revisão dessas investigações indicam que as preocupações dos professores se situam em aspectos como: indisciplina na turma, motivar os alunos para aprender, lidar com alunos que manifestam diferenças individuais (de aprendizagem, culturais,. etc.); planificar e concretizar o trabalho em sala de aula; estabelecer comunicação com pais; sobrecarga do trabalho administrativo; dificuldade de aplicar as orientações curriculares e outras da tutela, dada a sua frequente mudança e inadequação.

Ou seja, parece que as grandes preocupações dos professores se centram no seu trabalho, que é ensinar. Mais concretamente, parecem estar preocupados em fazer bem esse trabalho e referem preocupar-se com os impedimentos que encontram no caminho para chegar a esse fim.

A Importância de Ser Electrão

Informação recebida da Editora Gradiva

Sessão de lançamento da obra A Importância de Ser Electrão - O átomo e as suas ligações: um olhar sobre a evolução da Química, de José Lopes da Silva e Palmira Ferreira da Silva.

A sessão será hoje, dia 14 de Dezembro de 2009, pelas 18h30m, no Restaurante (Piso 7), do El Corte Inglés, em Lisboa.

A apresentação da obra será feita pelos Professores Júlio Pedrosa e José Barata Moura.

Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Acaba de sair o livro, ricamente ilustrado, "Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra", do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra e com coordenação de A.E. Maia do Amaral, que poderá ser adquirido na Livraria-Loja da Universidade, no átrio da Biblioteca Geral, para além da rede de livrarias. É uma óptima prenda de Natal!

Este livro destina-se a dar a conhecer os mais importantes livros e fundos da Biblioteca Geral. O conceito de “tesouro” não se restringe ao conceito corrente. O livro não se fixa apenas nos livros em si mesmos mais raros ou preciosos. Procura também apresentar documentos que, sendo ou não preciosos, tenham uma história interessante, tenham algo a dizer a um leitor dos nossos dias, mesmo aquele que não seja particularmente amante de livros e que talvez já esteja enfastiado de imagens e de eruditas prelecções.

Na história de uma biblioteca que está a completar 500 anos de bons serviços à Universidade e à comunidade, acumularam-se muitos “tesouros”, muitos livros por exemplo que são únicos e, por isso, preciosos (cerca de cinco mil documentos caberão nessa definição). Mas preciosos não serão também aqueles modestos livros de criança de posse da Biblioteca Geral que foram os primeiros do poeta Mário de Sá-Carneiro? E preciosos não serão também os originais dos desenhos de arquitectura da Reforma pombalina?

Se o leitor quiser aceitar a proposta do roteiro, em vez dos “tesouros” esperados, talvez encontre tesouros inesperados na Biblioteca Geral, que não é só mais uma antiga biblioteca universitária, mas é também a segunda mais importante biblioteca do país. E que coroa verdadeiramente, como diz o letreiro da Joanina, “a testa da cidade de Coimbra”, no topo da sua “colina sagrada”.

Esta traz como novidades absolutas algumas descobertas muito recentes: a identificação de um texto inédito e ilustrado de D. João Ribeiro Gaio, um espólio de António Feliciano de Castilho, uma importante colecção de desenhos do pintor José Contente, a identificação do primeiro fragmento conhecido de música para uma ópera de António José da Silva “o Judeu”, o primeiro estudo de conjunto das bíblias manuscritas iluminadas, a descrição dos magníficos super-libros que a Universidade usou nos séculos XVI e XVII e até a revelação de uma mão-cheia de pormenores completamente desconhecidos e nunca vistos do – paradoxalmente – mais visitado edifício da cidade, a Biblioteca Joanina da Universidade.

Na esteira da valorização daquilo que está para além da mera raridade bibliográfica, estes “Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra” têm um plano que passa pelos edifícios da biblioteca, pelos seus manuscritos desde o século XIII, seus códices e belas iluminuras, pelas edições quinhentistas, o “período de ouro” da nossa tipografia, mas também pelas revistas científicas, pelos livros mais recentes pela fotografia e pela imagem de todas as formas, até a imagem da própria biblioteca , representada seja na sua materialidade por mais de um século de fotografia, seja na sua identidade, na forma das suas marcas bibliográficas.

Para este plano concorrem diversos colaboradores, distribuídos pelos seguintes capítulos:

“Uma coroa na testa da cidade”: a Biblioteca Geral, passado e futuro
Carlos Fiolhais

A Biblioteca da Universidade e os seus espaços
António Filipe Pimentel

Bibliotecas eruditas e espólios literários e científicos
A. E. Maia do Amaral

Fundos musicais : uma breve apresentação
Flávio de Pinho

Manuscritos iluminados
Saúl António Gomes

Tipografia Quatrocentista e Quinhentista
Maria da Graça Pericão

Imprensa periódica portuguesa
Iuliana Gonçalves

A imagem fotográfica na Biblioteca da Universidade
Alexandre Ramires

O Instituto de Coimbra: breve história de uma academia científica, literária e artística

António José Leonardo, Décio Ruivo Martins e Carlos Fiolhais

Marcas bibliográficas da “Livraria da Universidade” (sécs. XVI-XXI)

A. E. Maia do Amaral

A BGUC e as bibliotecas da Universidade de Coimbra
Carlos Fiolhais e João Carlos Marques

Uma das características mais marcantes deste volume é a relevância que nele ganha a imagem. Ilustrações completamente novas e para muitos inesperadas. Nesta vertente, quase todo o encanto da obra se fica a dever à fotografia radiosa e “científica” de Paulo Mendes e à fotografia mais obscura e poética de João Armando Ribeiro, sem esquecer o charme de todos os grandes fotógrafos ali invocados e que, desde o inglês Charles Thurston Thompson, em 1866, até à alemã Candida Hoefer, em 2005, fixaram esse objecto fotográfico de excelência que é a Biblioteca Joanina.

Dia de Natal


O nosso habitual colaborador António Piedade sugeriu-nos que, atendendo à época, publicássemos o poema "Dia de Natal" de António Gedeão, pseudónimo do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho. Aqui está:

"Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso anti magnético.)
Torna se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeus enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilowatts,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha se uma roupagem diáfana a desembrulhar se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda o a surpresa
Do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.

Já está!
E fazia as erguer para de novo matá las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas."

António Gedeão, in Máquina de Fogo

domingo, 13 de Dezembro de 2009

"A arte está na minúcia que não é arte"

"A arte está na minúcia que não é arte"
Leonardo da Vinci

O nosso leitor João Boaventura teve a ambilidade de nos enviar a sequência de imagens que se pode contemplar de seguida e que são acompanhadas de uma legenda esclarecedora e da frase acima transcrita de Leonardo da Vinci. A arte ao sair para a rua, ao ir ao encontro das pessoas permite que as pessoas se (re)encontrem com ela.

The 3,604 cups of coffee were each filled with different amounts of milk to create the different shades.
.

Money makes the education go round - 1

Pagar-se a certos alunos para estarem na escola (apenas para estarem?) é prática generalizada nos sistemas de ensino ocidentais (ver aqui uma notícia curiosa). Não, não estou a falar de bolsas de estudo nem de mérito. Estas têm um longo passado, sendo claras as suas regras relacionadas com o rendimento académico. Estou a falar de incentivos financeiros, prémios para “obrigar” alunos em risco de exclusão a aceitarem o direito à educação, a cumprirem o dever de assiduidade…

Pagar-se a professores, em função do seu desempenho, para que eles melhorem esse desempenho pode também passar a ser prática generalizada em tais sistemas. Não, não estou a falar do ordenado decorrente do exercício da profissão, pois é óbvio que devem ser dados os meios financeiros que permitam aos professores viverem (e não apenas sobreviverem). Estou a falar de incentivos económicos, prémios para “atrair e conservar pessoal docente de alta qualidade”.

E como se determina se um docente é “de alta qualidade”? Avaliando-o.

Esta recomendação de associar os resultados da avaliação a recompensas financeiras é da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e decorre de um estudo que essa organização recentemente realizou.

No relatório em se que dá conta desse estudo, aponta-se o “«caso radical» da Suíça onde os salários são discutidos caso a caso, todos os anos, entre as escolas e os professores" e de Singapura onde “os professores podem receber bónus equivalentes ao triplo do salário mensal”.

Mas - deve notar-se - nestes países parece existir a preocupação de que os alunos, de facto, aprendam, uma vez que existe uma monitorização consistente das aprendizagens, tendo, além disso, surgido resultados satisfatórios em programas de avaliação internacional.

Em países como Portugal, que não garantem uma monitorização das aprendizagens equiparável, e sendo o modelo de avaliação do desempenho docente fortemente contestado, parece-me que há razões para temer pela pobreza progressiva dos que (ainda) querem ensinar saberes científicos, que não ficam pelos saberes do senso-comum, subjectivos e profissionais (refiro-me ao que escrevi aqui), e que não se centram no desenvolvimento das oito competências sugeridas pela União Europeia (refiro-me agora ao que escrevi aqui).

Abstraindo do nosso caso, a questão mais geral e, afinal, essencial, é a seguinte: como sociedades esclarecidas que somos ou que queremos ser, para levarmos os alunos a investir na sua aprendizagem e para nos asseguramos que os professores exercem o dever de os educar bem, deveremos eleger como primeiro estímulo a recompensa económica?

Nota: Sobre este assunto ver artigo de Pedro Sousa Tavares, publicado no Diário de Notícias, em 8 de Dezembro de 2008.

O BUREAU DES LONGITUDES


Do meu livro "Curiosidade Apaixonada", saído há anos na Gradiva, eis uma crónica de uma visita a uma antiga instituição científica que os franceses preservam:

No outro dia, a almoçar em Paris com físicos franceses, perguntei se ainda existia o Bureau des Longitudes, instituição lendária criada durante a Revolução Francesa com o fito de resolver os problemas relacionados com a determinação da longitude, nomeadamente no mar. E, perante um certo ar de espanto dos meus interlocutores, que indiciava a falta de senso da questão, perguntei logo o que fazia o Bureau actualmente.

A resposta foi muito simples, mas também surpreendente. À minha frente estava, sem eu o saber, o Presidente (“Monsieur le President”) do Bureau des Longitudes e ao meu lado estava, também sem eu o saber, um antigo Presidente e actual membro do mesmo Bureau. O Presidente passou-me, simpaticamente, a sua “carte de visite”. E convidou-me a assistir à próxima sessão do Bureau que se realizava precisamente no dia seguinte, quarta-feira, pelas 10 horas da manhã. O Bureau reúne na primeira quarta-feira de todos os meses pontualmente às 10 horas, ou não fosse ela uma instituição bicentenária que trata, com minúcia, as medidas do espaço e do tempo.

Quem pergunta quer saber, pelo que não dei parte de fraco. No dia seguinte estava lá pouco antes das 10 horas. O sítio é magnífico. Quem vem da margem Norte do rio Sena, o ponto de referência é o Museu do Louvre, no meio do qual está a famosa pirâmide de vidro. Aí atravessa-se o rio pela Pont des Arts, entre a Pont du Carroussel e a Pont Neuf (que liga a Ile de France), e entra-se directamente na Place de l’Institut, que se abre no Quai de Conti. E nessa praça ergue-se, com uma elegância barroca, o Palais de l’Ínstitut, sede do Institut de France e também do Bureau des Longitudes.

O edifício, com uma cúpula que combina com a do vizinho Palácio do Louvre, foi construído em 1688 por ordem do poderoso Cardeal Mazarin (1602-1661). O nome original era Collège des Quatre Nations, uma vez que o edifício se destinava à educação de jovens nobres provenientes de quatro regiões que tinham sido anexadas à França. Hoje é a casa-mãe do Insitut de France. Este inclui a Academia Francesa, uma das mais famosas academias do mundo, fundada em 1635 pelo Cardeal Richelieu, e que tem quarenta membros encarregados de redigir o dicionário da língua francesa (um dos últimos académicos, “confrère” como os académicos franceses se chamam entre si, é o ex-presidente Valéry Giscard d’Estaing, não tendo a sua entrada sido isenta de polémica). Mas o sítio chama-se “palácio das cinco academias” porque além da Académie de France existem a Académie des Inscriptions et des Belles Lettres, a Académie des Sciences, que é a maior de todas, e a Académie des Beaux Arts e a Académie des Sciences Morales et Politiques. O Bureau des Longitudes, que é independente das academias, fica no fundo do Instituto, acedendo-se à porta que contém a respectiva placa dourada, depois de se passar dois pátios interiores.

A Academia Francesa e as outras estão normalmente fechadas ao público, exceptuando-se a visita marcada de grupos com interesses culturais. O mesmo se passa com o Bureau des Longitudes. Mas, quem é convidado, entra facilmente. O convidado subiu logo à histórica Sala das Reuniões, onde pontifica um teodolito antigo, para não passar pela vergonha de chegar depois da hora. É que a sessão começa mesmo às 10 horas, sem quaisquer atrasos académicos.

Tratava-se de uma reunião ordinária, com a particularidade apenas desta reunião anteceder a eleição do próximo Presidente, função para a qual é norma a indigitação do Vice-Presidente. O processo é democrático mas a democracia é convenientemente preparada! O Presidente depois de declarar aberta a sessão, apresenta o seu convidado (“professeur de l’Université de Coimbrá”, que muito honrado se senta numa boa cadeira lateral já que a mesa está reservada para os treze membros do Bureau), e passa a enumerar os pontos da ordem do dia.

Antes de entrar na ordem do dia, convém esclarecer qual é o objectivo do Bureau e quem são os “eleitos” que o constituem. Eles tratam hoje não já do problema das longitudes no mar, que está resolvido desde os trabalhos no século XVIII do inglês John Harrison (que construiu um relógio-cronómetro suficientemente preciso para medir as horas a bordo), mas de questões actuais relativas ao globo terrestre e ao cosmos. Como explica o seu “site” http://www.bureau-des-longitudes.fr/ o Bureau é uma academia científica que trata as ciências do Universo. Publica todos os anos um livro de efemérides astronómicas (sob o nome muito bonito de “La Connaissance du Temps”). Organiza um conjunto de palestras para o público em geral, no quadro da sua missão geral de difusão do conhecimento e da cultura científica. Emite pareceres sobre os domínios da sua especialidade (Física do Espaço e da Terra, Geodesia, Cartografia, etc). Já está, portanto, respondida a questão que deu origem ao convite... Os membros do Bureau são todos eles astrónomos e físicos. O presidente até há pouco tempo era o Professor Jean-Paul Poirier, que dirigiu a Laboratório de Geomateriais do renomado Institut de Physique du Globe de Paris. É autor de vários livros, entre os quais um traduzido em português (“O Núcleo da Terra”, Instituto Piaget, 2000). Serviu a França na Marinha Francesa, ocasião em que teve oportunidade de visitar Timor, quando este território ainda era colónia portuguesa. E lembra-se, com delícia, do vinho do Porto aí oferecido pelos seus colegas da Marinha Portuguesa.

De que constava a ordem do dia? Espero não cometer nenhuma inconfidência ao revelar que o Bureau des Longitudes na primeira quarta-feira de Dezembro ouviu uma palestra de um dos seus membros sobre o escritor Júlio Verne (2005 era o centenário da morte). Dada a vastidão de temas científicos e técnicos tratados pelo escritor de Nantes, o orador concentrou-se nos temas que diziam respeito ao clima. Os romances menos conhecidos o “Le Docteur Ox” (o doutor Ox do título tinha um ajudante chamado “Igène”; os dois em conjunto faziam “Oxigène”) e “Sans dessus dessous” (em português, “Fora dos eixos”, que trata de uma louca aventura de um grupo que quer alterar o eixo de rotação da Terra) fornecem bons motivos para discussão do clima numa altura em que tanto se discutem – e temem – as alterações climáticas à escala global. Depois desta palestra, recheada de erudição e humor, seguiu-se a apresentação do próximo volume de “La Connaissance du Temps”, que o Bureau “subempreitou” desde 1998 ao Institut de Mécanique Céleste et de Calcul des Ephémérides, do Observatório de Paris. Discutiu-se também a divulgação de uma brochura sobre o sistema Galileo, o projecto europeu de satélites que deverá em breve concorrer com o sistema norte-americano de GPS (“Global Positioning Systems”). Lembre-se que o GPS é hoje um método fiável de determinar não só a longitude, como a latitude e a altitude de qualquer lugar. Finalmente, informou-se que o Prémio Descartes, atribuído a trabalhos científicos que envolvam uma cooperação europeia foi atribuído, em parte, a uma equipa de astrónomos, chefiada por uma astrónoma do Observatório Real da Bélgica e que envolvia uma parceria com França e outros países. Os premiados criaram um modelo preciso para o movimento do eixo de rotação da Terra, que terá implicações para o sistema Galileo. Lá está o eixo de rotação que Verne queria alterar no seu romance...

É muito interessante como a França (e a Bélgica e vários outros países europeus) sabe conservar as suas tradições no domínio das ciências. O Bureau des Longitudes foi formado pela lei revolucionária do 7 Messidor do ano III (25 de Junho de 1795) tendo os seus primeiros membros sido dez grandes nomes da ciência, a saber Lagrange, Laplace, Lalande, Delambre, Méchain, Cassini, Bougainville, Borda, Buache e Caroché. Lagrange e Laplace fazem parte da época de ouro da ciência newtoniana. Delambre e Méchain foram os dois astrónomos que em 1791 partiram de Paris em direcções opostas para medir o meridiano de Paris. Os outros são menos conhecidos mas alguns foram aventureiros notáveis. Como Bougainville, que deu o nome às buganvílias, árvores que encontrou numa viagem ao Brasil e que hoje encontramos em Portugal.

Muito obrigado ao Prof. Poirier, Presidente do Bureau des Longitudes, por me ter respondido de uma forma tão hospitaleira a uma pergunta “naif”!

UM MUSEU DE ASTRONOMIA EM LISBOA


Post convidado de António Mota de Aguiar:

Numa das colinas de Lisboa, com vista deslumbrante sobre o Tejo, está situado o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), em tempos passados também chamado Observatório da Tapada ou ainda Observatório da Tapada da Ajuda.

Seria um imponente edifício se não estivesse tão mal conservado e se os jardins à sua volta não se encontrassem num abandono total, com árvores caídas, troncos secos espalhados pela superfície envolvente, um ar de desleixo e abandono generalizado.
O lugar à noite está desprotegido – apesar das supostas entradas controladas – e,por isso, já foi assaltado, tendo sido levados objectos que certamente continham informações de astronomia importantes.

Recentemente, lemos no sítio do OAL, hoje sob a tutela da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que o Estado (em razão da crise económica), restringiu os subsídios a algumas actividades científicas e culturais, tendo o pessoal sido também reduzido.

Mas o OAL tem um potencial arquitectónico e histórico enorme. A história que levou à construção do OAL é já por si fascinante, envolvendo os grandes astrónomos europeus da segunda metade do século XIX, além do malogrado D. Pedro V e do seu irmão D. Luís, como mecenas do observatório. Em 1878, o OAL falhou um projecto internacional – “La Carte du Ciel”: o Estado português não tinha o dinheiro que teria levado os estudos em Portugal para o domínio da Astrofísica, a par de várias potências da época.

As personagens que dirigiram o OAL, desde a sua entrada em funcionamento em 1867 e pelo menos até 1930 são, elas também, importantes figuras da ciência portuguesa, num momento histórico em que a nossa astronomia atingiu um certo brilho internacional. Nomes como Frederico Augusto Oom, Campos Rodrigues, Frederico Oom e Filipe Folque, Melo e Simas, estão associados à história do Observatório e as lutas que travaram em prol da astronomia portuguesa são importantes páginas da nossa história científica.

O interior do OAL é majestoso, já que foi construído para ser um grande observatório de astronomia. No seu interior encontram-se instrumentos de precisão importantes, além de telescópios que, em tempos passados, deram grande prestígio à ciência astronómica nacional.

Talvez por o país atravessar actualmente uma crise económica, há hoje uma motória falta de apoio financeiro: possuímos um património histórico deste tipo esquecido no cimo de uma colina de Lisboa. Um observatório astronómico deste tipo não é um museu de ciência nem um planetário, pelo que requer uma análise diferente. Como contributo assinalo o que me parece relevante para pôr de pé o OAL, que, na minha opinião, devia passar a ser um museu de astronomia:

• Antes de mais era necessário fazer as obras necessárias no edifício de forma a voltar à sua beleza anterior.
• Seria necessário arranjar o jardim à sua volta.
• Construir um pequeno restaurante com esplanada no jardim.
• Fazer uma campanha junto das escolas para que elas trouxessem os alunos a visitar o museu.
• Fazer uma campanha junto das agências de viagens, para que estas dêem a conhecer este tipo de museu (haveria certamente pessoas interessadas em visitar o museu de astronomia).
• Organizar visitas guiadas, onde seria exposta a história do património arquitectónico, dos astrónomos acima citados, e da astronomia de alta precisão realizada no OAL. E uma síntese para que os visitantes compreendessem como e onde se realiza hoje a investigação científica neste campo.

Se se alegar que o Estado não tem dinheiro para recuperar o edifício nem o jardim circundante, direi que a erosão, as intempéries climatéricas e os ladrões farão o necessário para que, dentro de alguns anos, o que ficar deste espólio histórico seja irrelevante.

A actividade do museu não colidiria com as actuais actividades pedagógicas e científicas levadas a cabo pelo OAL, porque o observatório é constituído por um segundo edifício. Os dois tipos de actividade antes se complementariam.

António Mota de Aguiar

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Saber e poder

A teorização do sociólogo e antropólogo suíço Philippe Perrenoud (ao lado) constitui um dos principais pilares de reformas curriculares que se têm realizado em vários países e que assentam na noção de competência de pendor construtivista (a qual deve ser distinguida da noção de competência de cariz cognitivista).

Entendem muitos que esta noção mantém uma relação enigmática com a de saber, entendido no sentido académico, o saber que as sociedades, de modo geral, têm solicitado à escola para transmitir, ainda que ele "circule" em vários dos seus sectores e instituições.

De facto, mesmo que o referido professor de Genebra afirme que "construir competências não é voltar as costas aos saberes", que as competências requerem saberes, os saberes a que se refere não se restringem ao que acabei de aludir, podendo ser: (1) saberes do senso comum, decorrentes do processo de socialização; (2) saberes subjectivos, como resultado das experiências pessoais; (3) saberes profissionais, que se reúnem ao longo da vida; e (4) saberes científicos, que requerem uma formação longa.

É precisamente em relação a estes últimos que os reparos críticos deste e de outros teóricos se têm concentrado, tanto no que respeita ao seu sentido na relação professor - alunos, como no modo de os tratar em contexto escolar. Sentido e modo que se acusa de derivarem de um exercício de poder e de, em consequência não permitiram a autonomia nem dos que ensinam, nem dos que aprendem...

O texto que se segue, ilustra esta ideia:

“Na escola, aprendemos que o saber é um recurso para exercer o poder, para «tapar a boca ao outro», para dizer «é assim porque eu sei». A assimetria da relação entre o professor e o aluno condena este último, durante nove ou quinze anos de vida, a ficar privado de falar diante de alguém que fala «porque sabe». Na escola obrigatória, somos constantemente colocados numa situação de violência simbólica em que o conhecimento nos é apresentado como finito, seguro, incontestável e exterior. O estatuto de construtor do saber é, em larga medida, negado ao aluno, de quem se espera no fim da cadeia da transposição didáctica que seja, preferencialmente, um consumidor deferente do saber.

Nesta cadeia, os professores, colocados entre o saber erudito e a transposição didáctica realizada pelos especialistas, também não são mais autónomos que os seus alunos (…) tem, também eles, muitas vezes uma relação deferente com o saber. Este é um dos problemas da formação dos professores e da sua relação com as novas pedagogias (…). Carente de formação epistemológica e do domínio dos modos de produção do saber erudito, o professor reporta-se a um estado condensado, sacralizado, da teoria (…). Na escola, em todas as disciplinas, esta relação respeitosa com o saber pesa terrivelmente sobre a comunicação, o estatuto do erro, da hipótese, do ensaio, da alternativa. Quando incide sobre o conhecimento, a comunicação escolar dá, muitas vezes, razão àquele que revela e reverencia o dogma. Na conversa de café, cada um pode dizer o que quiser, expondo-se à crítica, mas entre iguais. Na escola, dá-se o inverso: existe uma autoridade que detém o conhecimento e julga, de maneira soberana, a forma e o conteúdo das opiniões de todos (…). Na verdade, as novas didácticas dão um estatuto mais positivo ao erro e, nesse sentido, transformam o contrato didáctico. Mas já alguma vez medimos a revolução coperniciana que isso representa quanto à relação com o saber? Na escola teremos realmente liberdade de reflectir em voz alta?"

Ph. Perrenoud, 1995, p. 182.

Referências bibliográficas:
- Perrenoud, Ph. (1999). Construir compêtencias é virar as costas aos saberes.
- Perrenoud, Ph. (1995). Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar. Porto: Porto Editora.

A teia teológica

Novo texto de João Boavida na sequência de outros aqui publicados:


A partir do momento em que os homens inventaram deus, criaram um problema de que não mais se libertaram. Muitos se devem ter indignar com esta afirmação. Os ateus, por se julgarem libertos do problema; os crentes, por sentirem que isso não é problema. Para os primeiros, deus não existe, foram os homens que o inventaram, logo, estão fora do assunto, já saltaram dele. Os crentes, por seu lado, nem sequer entram no problema assim formulado. Se não foram os homens que inventaram Deus, mas Deus que criou os homens e tudo o resto, Deus não é problema mas aquilo que, no fundo, resolve todos os problemas.

Mas, embora por razões diferentes, é uma situação em aberto para todos nós. Porque se Deus me é transcendente, a sua compreensão ultrapassa-me. Só a fé me pode convencer dessa realidade que, justamente porque me transcende e ultrapassa, não posso alcançar por outro processo. Quando a fé falha, o problema surge ou agudiza-se. Se estou dependente de Deus pela fé, estou dependente de forças imanentes, que eu próprio crio e alimento ou enfraqueço. E que são valiosas para mim, mas que não consigo transmitir aos outros. Sendo vivências pessoais, só eu as posso sentir e reconhecer como verdade, só eu posso captá-las na sua essência. Há certamente comunidades de crentes, mas resultam de processos inter-subjectivos, que não vão ao essencial. Estando portanto assente na fé de cada um, Deus é sempre um problema pessoal em aberto. Como todos sabem, a fé não liberta ninguém dos problemas que a existência de Deus coloca, de vez em quando, mas dá-lhe uma saída na esperança. Veja-se Santo Agostinho, para não irmos mais longe.

Mas os ateus também não têm o problema resolvido. Desde o momento que a humanidade chegou à ideia de Deus (ou criou Deus na sua cabeça) nunca mais se libertou disso, porque, para lá dos factores psico-afectivas e morais, ou seja, pessoais e sociais, mais fortes do que se julga, fica a necessidade de destruir uma ideia que nós próprios criamos. (Nós no sentido de humanidade, claro). E como é da experiência corrente, não há tarefa mais difícil que querer varrer do espírito uma convicção criada por nós. Quanto mais nos esforçamos para apagar uma ideia, mais ela nos persegue.

A negação de Deus está prisioneira da ideia de Deus, e a ideia é o resultado de uma evolução de que já não podemos regressar. A ideia, pela sua natureza, ultrapassa-nos sempre. É claro que há os dados da ciência e as suas explicações cada vez mais credíveis sobre a origem da matéria e as teorias evolucionistas e o racionalismo, reduzindo as religiões a formulações míticas. Foi a evolução da ciência e do racionalismo modernos que foram reduzindo e enfraquecendo o campo da religião.

Mas se, por um lado, a evolução da ciência clarifica mistérios e destrói mitos, por outro, na medida em que aprofunda, reproblematiza, isto é, abre novas fronteiras para a ideia de tudo o que nos ultrapassa. O problema não está, pois, na coerência e nas explicações dos livros sagrados (Bíblia, Corão, etc.) nem na bondade ou maldade dos deuses, mas na própria problemática da infinidade, que num dia já remoto a Humanidade conseguiu intuir, por incompreensível que seja. A vitalidade da luta entre o espírito religioso e o que se lhe opõe, isto é, o eterno problema para crentes e para ateus está na incompreensão simultânea do finito e do infinito, na dificuldade psico-afectiva de aceitar a finitude e na impossibilidade racional da ideia de infinitude.

João Boavida
Imagem: Thor, um dos deus da mitologia nórdica.

UMA NOVA REVISÃO DO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE

“E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda a parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como se dirigir às pessoas certas e não se dirigir às erradas” (Platão, 428 a.C. – 348 a.C.).

Seja qual for o prisma com que se encare as grandes crises educativas, sociais ou económicas que se apresentam ao país, Portugal parece perpetuar-se na triste sina de nada querer aprender com os erros do passado, aplicando "vacinas" de que desconhece os efeitos assim como a dose certa a utilizar, provocando, com isso, a disseminação endémica da própria doença.

Vem a propósito recordar que o Estatuto da Carreira Docente (Decreto-lei 409/89), promulgado no tempo do ministro da Educação Roberto Carneiro, num clima de intensa pressão sindical, foi a causa da criação da Associação Nacional dos Professores Licenciados (ANPL), em Janeiro de 1991, génese do actual Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), que conheceu a luz do dia no ano seguinte em defesa, entre outros, do seguinte princípio doutrinário: “O SNPL representa a ruptura com as orientações sindicais então existentes, em oposição frontal à instituição de uma carreira única de professores, pois pretende revalorizar a profissão em todo o seu percurso, em consonância com os valores e as necessidades dos professores dos nossos dias”.

Perante a estranha passividade de quem parecia ingenuamente acreditar ter como bastante a justiça pelo seu lado na defesa dos seus lídimos direitos, promoveu a ANPL uma conferência de imprensa a alertar a opinião pública, em geral, e os professores licenciados por universidades, em particular, para o perigo de se tornarem coniventes, ou meros agentes passivos, deste iníquo “statu quo”. Da referida conferência, com a presença de diversos órgãos de informação, transcrevo um pequeno excerto:

“O Decreto-lei 409 provocou muitas injustiças. Não teve em conta as habilitações académicas. Permite que tanto um licenciado como uma pessoa que dispõe apenas da quarta classe e de um ano de magistério (os antigos regentes) atinjam o topo da carreira. Por outro lado, professores licenciados que à data da entrada em vigor do decreto (Dezembro de 1989) tinham atingido o topo da antiga carreira ficam agora colocados três escalões abaixo e só podem ascender ao escalão máximo se se sujeitarem à feitura de um trabalho de índole pedagógica” (“Docentes com ‘canudo’ querem tratamento diferenciado”, Correio da Manhã, 22/10/91).

Entretanto, as Escolas Superiores de Educação continuaram a formar, ad libitum, simultaneamente, professores para os 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, respectivamente, a níveis de bacharelato e licenciatura, em que a preparação dos professores do 2.º ciclo constava dos três anos iniciais de um bacharelato comum e de mais um único ano de preparação para a docência do 2.º ciclo com professores habilitados (?) para ministrarem, simultaneamente, Matemática e Ciências da Natureza enquanto para os licenciados universitários leccionarem, apenas, ou Matemática ou Ciências da Natureza desse mesmo 2.º ciclo eram exigidos cursos mais exigentes e de maior duração.

Como é fácil de supor, a esmagadora maioria dos alunos das Escolas Superiores de Educação optaram por mais esse ano de estudo deixando o 1.º ciclo do ensino básico (antigas escolas do ensino primário) carenciado de docentes. Por isso, na altura, não pude deixar de criticar publicamente Ana Maria Bettencourt, membro do corpo docente da Escola Superior de Educação de Setúbal e actual presidente do Conselho Nacional de Educação, quando escreveu "de pena ao vento", como diria Eça, que “em matéria de formação de professores, o pensamento dos reitores é pré-histórico” (Correio da Manhã, 16/06/96).

Respondia Ana Maria Bettencourt, desta forma, a um documento intitulado “Repensar o Ensino Superior”, no qual, em face da promiscuidade entre os ensinos universitário e politécnico, era defendida a necessidade de “proceder rapidamente à análise das funções das Escolas Superiores de Educação, considerando-se a oportunidade da sua reconversão, por exemplo, em centros de formação contínua dos docentes do ensino não superior ou em escolas com outra vocação”. Havia nesta proposta uma certa ingenuidade que residia no desconhecimento da feroz oposição dos sindicatos de professores em abdicarem desta rendosa fonte de receita.

Perante esta herança recebida por Isabel Alçada, ex-docente da Escola Superior de Educação de Lisboa e antiga dirigente da Fenprof, embora sem querer fazer juízos de valor precipitados, dado o meu desconhecimento das linhas programáticas que irão presidir à sua acção no ministério da Educação, cada vez se radica mais em mim a ideia que as futuras modificações no Estatuto da Carreira Docente se destinam a simples alterações pontuais (e nem sempre no melhor sentido) de uma legislação a necessitar de uma reformulação de raiz por um estado de saúde patológico que não se cura em fazer mais do mesmo ou com mezinhas sindicais. Não se cura agora como não se curou no passado, com os nefastos resultados bem à vista de um ensino que não ensina.

Isto porque um país que desrespeita, ou subalterniza, diplomas oficiais universitários está gravemente enfermo, necessitando com urgência de um “Serviço Nacional de Leis” para estudar a etiologia das suas mazelas jurídicas, para debelar os efeitos de uma avulsa legislação mal feita, mal escrita e mal interpretada, e, se for caso disso, para atribuir um subsídio de funeral a maleitas legislativas sem cura possível. Assim haja a necessária coragem, por parte de todos os intervenientes bem intencionados, para melhorar o nosso sistema educativo, não comungando do desalento do poeta de ”Orpheu”: “Já não me importo / Com o que amo ou creio amar. / Sou um navio que chegou a um porto / E cujo movimento é ali estar”.

O que se pretende com esta adaptação?

Repare o leitor na imagem ao lado...

Terá imediatamente percebido que se trata da adaptação dum famoso desenho de Leonardo da Vinci e descobri-o na capa dum manual escolar de Estudo do Meio para o 2.º ano de escolaridade.

No passado tive oportunidade de constatar que, na generalidade dos livros de Língua Portuguesa para o Ensino Básico, os poucos textos dos nossos escritores clássicos que neles constam são quase todos adaptados. Agora constato que também se adaptam outros legados da civilização aos quais todas as crianças e jovens deveriam ter acesso na escola. Entre esses legados, está um desenho de... Leonardo da Vinci: o Homem Vitruviano.

Não me atrevendo a fazer qualquer comparação estética entre ambos, fico-me pelo que óbvio:

- O Homem Vitruviano dá lugar a uma imagem de "criança";
- O Homem Vitruviano fixa-nos de modo sério, determinado; a "criança" sorri (?)inexpressivamente;
- O Homem Vitruviano representa um problema matemático complexo (formulado pelo arquitecto grego Vitruvius), que aqui desaparece para deixar perceber, um mundo desbotado em fundo;
- O Homem Vitruviano revela a beleza do corpo humano; a "criança" tem cuecas.

O que se pretende com esta adaptação? Sinceramente, não sei, pelo que apenas posso questionar-me:
- Será pôr o aluno no centro? Mas de quê?
- Será interessar o aluno, supondo que lhe agrada mais algo parecido com uma "criança" do que o Homem de da Vinci?
- Será a preocupação de não sobrecarregar o aluno com mensagens que requerem pensamento?

Talvez haja uma resposta razoável que me escapa...

DARK MATTER: POEMS OF SPACE


Informação recebida da Fundação Gulbenkian (clicar para ver melhor).

A DÉCADA MAIS QUENTE DOS TEMPOS MODERNOS


Habitual destaque dos sábados para a coluna do físico Bob Park "Whats New", onde ele dá conta de dados que confirmam o aquecimento global:

"WARMER: THE TREND SHOWS NO SIGN OFF ENDING.

At the Copenhagen climate talks, Michel Jarraud, secretary general of the international weather agency, told a news conference that the period from
2000 through 2009 will almost certainly be the warmest decade in the 150
years of modern record-keeping. And with just a few weeks remaining, 2009
will likely be the fifth warmest year on record. But what about those
hacked emails from the climate research unit at the University of East
Anglia? Jarraud replied that there is no evidence that independent
estimates showing a warming world are in doubt. The more interesting
question is who was behind the break-in and why? The use of dirty tricks to
cast doubt on the reality of global warming began with Kyoto."

Robert Park

A MATEMÁTICA NO TEMPO DO MESTRE JOSÉ VIZINHO

Convite recebido da editora Gradiva:

A Delegação Regional Centro da Sociedade Portuguesa de Matemática, a UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR e a GRADIVA, no âmbito da realização das Tardes de Matemática - 2009, têm o prazer de convidar V. Ex.ª a estar presente na sessão de apresentação da obra

A MATEMÁTICA NO TEMPO DO MESTRE JOSÉ VIZINHO
de António Costa Canas e Maria Eugénia Ferrão (coords.)


A sessão terá lugar no dia 12 de Dezembro, pelas 15h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, na Praça do Município, Covilhã. A sessão de apresentação da obra terá como oradores

Maria José Ferro Tavares, Natália Bebiano da Providência e António Costa Canas.

CONFUSÃO NA RELIGIÃO


No "New York Times" de hoje, Charles Blow publica um comentário ao recente "Pew Report" que dá conta da crescente confusão que a população norte-americana alimenta no domínio da religião: crenças de diferente origem misturam-se e alastram. Ver aqui. Gráficos elucidativos estão aqui : as experiências místicas, o contacto com mortos e com fantasmas tem aumentado.

A BEAUTIFUL MIND


Na revista de livros do "New York Times" de hoje, Jascha Hoffman recenseia, sob o título "Grigori Perelman’s Beautiful Mind" o livro

PERFECT RIGOR. A Genius and the Mathematical Breakthrough of the Century
By Masha Gessen
242 pp. Houghton Mifflin Harcourt. $26.

sobre o matemático russo Grigori Perelman (na foto), que demonstrou a conjectura de Poincaré para em seguir desaparecer de cena, recusando até a Medalha Fields. Começa assim:

"In 1904 the French mathematician Henri Poincaré made a conjecture about three-­dimensional space that may help to explain the shape of the universe. Although it was crucial to the growth of the field of topology, Poincaré’s conjecture resisted proof for a century. When a Boston philanthropist announced a million-dollar prize for its solution in 2000 it was unclear whether he would ever have to pay.

Then, in 2002, a Russian mathematician named Grigori Perelman posted a terse paper to an online archive. In the course of tackling a broader problem, Perelman seemed to have miraculously swept away the remaining obstacles to proving the Poincaré conjecture. Soon the mathematical rumor mill was buzzing. The proof seemed genuine, but word was that Perelman had no plans to publish it."
Ler aqui

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

A inveja

Destacamos, como vem sendo hábito, a crónica do médico psiquiatra J.L. Pio de Abreu, no "Destak":

Neste pequeno mas mexido País, toda a gente já foi tudo, todos já se iludiram e desiludiram. E toda a gente se conhece o suficiente para perceber que nenhum outro é melhor que nós.

Mas acontece que, às vezes, os outros, aqueles que não são melhores que nós, têm, na verdade, mais sucesso. É aí que se instala a inveja, sobretudo essa inveja destrutiva que clama por justiça e vingança. Se os outros não são melhores do que nós e, apesar de tudo, conseguiram ir mais longe, é porque fizeram falcatrua.

É interessante descobrir que os futebolistas escapam a este destino: só neste caso, a inveja cede à admiração. Talvez seja porque, à partida, ninguém os conhece, vieram da periferia, não têm nomes de família. Mas também pode ser pela sobranceria com que ainda vemos os jogadores de futebol, coisa a que eles se prestam com uma humildade cultivada.

Também pode ser porque o futebol não estava nos planos de belezas desfeiteadas, homens mal-amados, princesas em declínio, actores sem plateia, personalidades apeadas, ressentidos em geral e todos aqueles que, sentados nas suas frustrações, vão descarregando o fel nas conversas casuais, nos comentários da internet ou em inesperadas janelas de protagonismo.

Todos incham de portugalidade com um golo bem metido. Mas quando olham para as pessoas a seu lado, para aqueles que podiam estar como eles, mas estão melhor ou mais activos, o mal da inveja aperta-lhes o estômago, dilata-lhes os olhos e transtorna-lhes o raciocínio.

J.L. Pio Abreu

CIÊNCIA DA TRETA


“Conversa da Treta” foi o título de uma peça de teatro popular protagonizada pelos actores José Mário Gomes e António Feio. A palavra “treta” já adquiriu, porém, um significado filosófico além do popular. Com efeito, o filósofo norte-americano Harry Frankfurt num livrinho intitulado “Da Treta” (no original On bullshit”, tradução portuguesa da Livros de Areia) disserta não sobre a mentira, um conceito com um significado epistemológico superior uma vez que mentir pressupõe conhecer a verdade que é negada, mas sobre atreta, isto é, a conversa em que a verdade e mentira se entrelaçam confusamente porque o falante não está minimamente interessado em separar uma de outra, mas sim e apenas em baralhar tudo e todos.

O livro “Ciência da Treta, saído há pouco tempo na Bizâncio, é um dos melhores livros de divulgação da ciência vindos a lume em Portugal no ano de 2009. É seu autor o inglês Ben Goldacre (na foto), médico formado pela Universidade de Oxford, com prática no Serviço Nacional de Saúde inglês, especializado em Psiquiatria, e conhecido do grande público, pelo menos britânico, devido principalmente à sua coluna semanal aos sábados no jornal “The Guardian”. O livro resultou precisamente da compilação dessas crónicas, tendo até no original o mesmo título da coluna: “Bad Science. Traduzido à letra teria dado em português “Má Ciência”, mas o editor fez bem em traduzir por “Ciência da Treta. O autor analisa – e fá-lo sem papas na língua! – um conjunto de “tretas” das áreas da medicina e farmácia que é alimentado por um conjunto de pessoas – incluindo vários praticantes de pseudociências (como os homeopatas e outros curandeiros), grande indústria farmacêutica, nutricionistas com grande poder mediático, etc.

O autor conhece bem o método científico, isto é, a maneira de que dispomos hoje para descartar o erro, para separar tanto quanto possível a verdade da mentira. E, no sector da saúde, mostra como o método científico pode ser e é largamente ignorado, ao mesmo tempo que se fazem passar por credíveis um vasto conjunto de tretas, às quais se atribui injustificadamente uma base científica. É um livro de combate – um livro manifestamente em favor da ciência e impiedosamente contra a má ciência ou, talvez melhor, a pseudociência – num mundo que, apesar de estar cada vez mais dominado pela ciência, passa, em muitos aspectos, ao lado dela.

O estilo divertido do autor é um principais atractivos do livro. O seu humor revela-se, por exemplo, quando, no prefácio, afirma que se, no final da leitura, o leitor continuar a discordar dele, estará pelo menos a discordar dele “com muito mais estilo”:

“E se, quando terminar, ainda achar que discorda de mim (…) não deixará de estar errado, mas pode ter a certeza que o estará só que de uma forma muito mais confiante e com muito mais estilo do que poderia apresentar neste momento.”


No Capítulo 2 ridiculiza um programa denominado “Ginástica Cerebral”, que é “impingido” em escolas oficiais do Reino Unido, e que não passa, para Goldacre, de um “sem-fim de disparates vergonhosos e embaraçosos”. O programa recomenda, por exemplo: “Beba um copo de água antes das actividades de Ginástica Cerebral. Dado tratar-se de uma componente principal do sangue, a água é vital para o transporte do oxigénio ao cérebro”. Comenta Goldace: “Deus nos livre de o sangue secar por completo” . A escola portuguesa está mal, mas podia estar pior se tivessem cá chegado essas tretas!

No Capítulo 4 ataca os homeopatas, dizendo, a propósito da pretensa memória da água que esses “cientistas da treta” reclamam, que a circulação da água é uma enorme trivialidade:

“A água que tenho no corpo, no preciso momento em que estou aqui sentado a escrever em Londres, já passou pelos corpos de muitas outras pessoas antes do meu. Talvez algumas das moléculas de água que estão nos meus dedos ao escrever esta frase se encontrem presentemente no globo ocular do leitor, Talvez algumas das moléculas de água que transmitem informação aos meus neurónios no momento em que decido se vou escrever “chichi” ou “urina” besta frase estejam agora na bexiga da rainha (que Deus a abençoe): a água não faz distinções, anda por aí a circular. Basta olharmos para as nuvens.”


Mais ainda, no Capítulo 6, desmascara um famoso nutricionista da televisão britânica Michael van Straten, que, perante as câmaras, afirmou com um gesto teatral que um sumo de romã acrescentava dois anos à vida (alguns meses, emendou a seguir), falando de uma investigação recente, “acabada de publicar na semana passada na América”, segundo a qual o sumo de romã protege do envelhecimento. Na verdade, consultada a Medline, uma base de dados de referência da investigação biomédica internacional, Goldacre não encontrou nada que se parecesse, nem de perto nem de longe, com um estudo deste tipo que tivesse as conclusões que foram propagandeadas. A menos que, em vez de um artigo científico, se tratasse, sugere o nosso autor, de um panfleto da indústria das romãs… Isso não quer dizer que beber sumo de romã não faça bem à saúde, apenas quer dizer que a ciência, num bom exemplo de “conversa da treta”, foi invocada em vão pelo nutricionista!

Como remédio contra as patranhas que todos os dias nos entram via televisiva ou computacional pelos olhos dentro, Goldacre recomenda a medicina baseada na evidência, isto é, a medicina baseada na lógica e na experimentação. Explica o que são testes duplamente cegos (testes clínicos nos quais nem o doente nem o médico sabem que estão a receber ou a dar um medicamento, pois este aleatoriamente é substituído por algo inócuo, o chamado placebo) e a sua necessidade para a certificação de novos fármacos. Há aqui um fenómeno bastante curioso: O simples facto de um paciente saber que está a ser tratado favorece o seu restabelecimento, mesmo que ele esteja a tomar um inofensivo comprimido de açúcar. Este é o chamado “efeito placebo”, que, por estranho que pareça, existe na realidade, quer dizer, um doente a quem foi dado uma vulgar pastilha de açúcar, sem quaisquer propriedades terapêuticas, tem uma maior probabilidade de curar do que a que é dada meramente pelo acaso. O autor explica como os resultados da medicina baseada na evidência contrastam por completo com os das medicinas ditas alternativas, que, por isso, não podem ser consideradas alternativas válidas.

O penúltimo capítulo da tradução portuguesa ocupa-se de um curandeiro inglês que pretendia curar, por meio de vitaminas, a SIDA na África do Sul, país onde essa doença atingiu proporções alarmantes (é bom lembrar a posição estúpida que o governo desse país assumiu no passado, chegando a negar que a doença, era causada por um vírus). Essa crítica deu origem a um processo em tribunal, no qual o médico foi defendido por advogados do "The Guardian". O original não pôde, por isso, incluir este capítulo saído no jornal. Como no Reino Unido a justiça é mais célere do que em Portugal - o que aliás não é difícil- , não demorou muito até que Goldacre ganhasse o processo, ficando naturalmente as respectivas custas a cargo da parte queixosa. E a tradução portuguesa já acolheu o texto que estava interdito.

Depois de demolir por completo as críticas completamente injustificadas que saíram nalguns média à vacina tríplice por, alegadamente, ser causa de autismo, Goldacre dedica algumas palavras à pandemia causada pelo vírus H1N1, no final do livro. Põe ênfase na incerteza associada ao nosso actual conhecimento da doença. E aponta o dedo aos média, por não conseguirem separar o trigo do joio. “Já nem neles próprios acreditam”, conclui o nosso autor. O livro “Ciência da Treta, distinguido em 2008 pela Royal Society (a Academia de Ciências britânica), é um verdadeiro antídoto contra os disparates num tempo onde, estranhamente, estes são muito mais abundantes do que seria expectável.

- Ben Goldacre, "Ciência da Treta", Bizâncio, 2009.

O Sexo dos Anjos

Joel Costa dedicou os três últimos programas do seu Questões de Moral (Antena 2, da Rádio) às sociedades, instituições e valores que permitiram, até um passado ainda recente, a "produção" de milhares de "anjos cantores", de "castrati", para alimentar os coros das Igrejas e as Óperas da Europa.

Detem-se de modo magistral, como é costume, na sua educação, nas suas ligações afectivas, nos seus fracassos e sucessos... sempre com música criteriosamente seleccionada.

Esses programas, que vale a pena ouvir, têm os seguintes títulos:

- O Sexo dos Anjos, ou a desventura dos mal castrados e a glória dos bem castrados
- O Sexo dos Anjos e os famosos Conservatórios de Nápoles
- O Sexo dos Anjos, ou Um problema de Moral Cristã

E, podem encontrados aqui.

No De Rerum Natura já nos referimos a este assunto aqui.

Imagem: Farinelli Playing Harp, de Edward Tabachnik